Reflexões

Você saberia dizer no que os pássaros são melhores do que nós?

Eu acho muito interessante como essa percepção que temos, de que estamos mais seguros juntos e que não sobreviveríamos sozinhos é inata a todos os seres vivos. Mas os passarinhos têm feito um trabalho melhor que a gente – vocês concordam?

Talvez você já tenha notado como as aves – de maneira geral – voam sempre juntas e de um jeito super organizado. A natureza é incrível! Elas fazem isso por alguns motivos: primeiro porque voando juntas, elas chegam mais longe do que iriam se voassem sozinhas (até 70% mais longe). Segundo, elas gastam menos energia, desta forma – o que é importante, até para sobreviverem. O posicionamento durante o vôo, tem um papel importante: uma não perde vista da outra. E outro motivo, não menos importante, é a sobrevivência. Voando juntas, ficam menos vulneráveis aos predadores. Se você gosta deste assunto e quiser saber mais, leia esta reportagem da Super Interessante.

Eu acho muito interessante como essa percepção que temos, de que estamos mais seguros juntos e que não sobreviveríamos sozinhos é inata a todos os seres vivos. Mas os passarinhos têm feito um trabalho melhor que a gente – vocês concordam? É invejável tanta organização, confiança um no outro, disciplina – cada pássaro da revoada sabe seu papel – entre outras coisas. Por exemplo: a ave que está à frente, na formação, é a que mais se desgasta. Na medida em que o líder se cansa, vai trocando de lugar com os pássaros da segunda fila, que assumem a liderança.

Sempre observo trabalhos em grupo e eles sempre me emocionam. Geralmente alcançamos maiores resultados e mais qualitativos, quando trabalhamos juntos, do que atingiríamos se estivéssemos sozinhos. E há situações em que o plano só dá certo caso estejamos juntos, como uma orquestra sinfônica, por exemplo. Para o Bolero de Ravel acontecer, o maestro precisa dos flautistas, dos trompetistas, dos saxofonistas, dos clarinetistas, dos fagotistas, dos oboístas e assim por diante. Até a única pessoa que toca o tambor e a única pessoa que toca a harpa, durante este concerto, são cruciais. Sem qualquer um destes instrumentistas, a música não fica igual, ela não ganha força – e a experiência musical não acontece. A orquestra sinfônica sempre foi uma grande referência de trabalho em grupo, para mim. Imaginem vocês se qualquer um destes profissionais cismassem em querer aparecer mais do que os outros. Se eles tivessem uma vaidade e egocentrismo indomáveis…?

Com a dança é a mesma coisa. A primeira bailarina precisa do corpo de baile para o espetáculo acontecer, e precisa do seu par. Se não houver confiança e respeito um pelo outro, onde vai o espetáculo que nos entretém e nos encanta? Que beleza teria a Valsa das Flores, caso o corpo de baile não estivesse ali? Vocês sabem como é feito o ensaio da Dança dos Pequenos Cisnes? Se uma delas tropeça, todas as outras tropeçam. Se uma erra, todas erram. Se uma bailarina fica doente, todas as outras param os ensaios até que ela se recupere (não há substituições) – à título de curiosidade, vejam esta gravação de uma companhia de dança brasileira, dançando esta música – está em 1:06 minutos do vídeo (eu sempre choro). É uma metáfora perfeita de como nós dependemos uns dos outros.

Será que estamos fazendo um bom trabalho?

A razão pela qual eu comecei a escrever este texto (e eu juro que tento fazê-lo o menos pessoal possível) é a maneira como venho observando o comportamento das pessoas durante a pandemia. Eu tenho pra mim que a maneira mais eficaz de medirmos a grandeza moral e cívica de uma sociedade, é observar como ela se comporta durante períodos críticos, como uma guerra ou uma pandemia.

Numa comparação em menor escala, desde o começo da pandemia, a Favela de Paraisópolis – a maior ou uma das maiores favelas de São Paulo – tem se organizado e se destacado por seu trabalho de combate à pandemia – já que o trabalho das autoridades se mostra ” ineficiente, demorado e burocrático” (Voluntariado Empresarial, 2020). Lá eles criaram o que chamam de “Comitê das Favelas”, para que fosse feita a gestão da crise. Elegeram um presidente de rua para cada 50 moradores. Este presidente de rua tem algumas funções, entre as quais: encontrar um vice-presidente, entre estas 50 pessoas que lhe são confiadas, para que as ações não deixem de serem feitas caso ele esteja ausente; fazer um trabalho de conscientização com estes moradores, admoestando-os sobre o cumprimento da quarentena e as regras de isolamento. Acionar ambulâncias quando necessário.

Além deste vídeo que estou deixando abaixo, neste artigo você consegue ver todas as outras iniciativas feitas pela comunidade – que possui mais de 100 mil habitantes.

Visão crítica sobre nosso papel

Eu sou a primeira a pessoa a repetir que, em situações em que vemos o copo cheio até a metade, devemos acreditar que ele está quase cheio e não quase vazio. Entretanto, às vezes fica difícil manter o foco em gente como nós e as pessoas da favela de Paraisópolis, por exemplo. Recentemente, saí do grupo do condomínio no WhatsApp, por que as discussões giravam em torno de pessoas achando ruim o fato de a academia ter sido fechada e eles precisarem interromper seus treinos. Vi de tudo, inclusive alusões à Hitler (foi quando eu saí do grupo). Em nenhum momento foi oferecida ajuda para quem estivesse doente, ou pensado no que poderíamos fazer para mitigar os riscos dentro do prédio. Ou quem sabe oferecer ajuda a algum idoso para as compras do supermercado? Tudo o que vi foram pessoas reclamando porque a academia fechou – e se academia fechou, as obras também deveriam ser interrompidas (prejudicando portanto as pessoas que precisam entregar a casa onde moram atualmente – situação pela qual os outros já tinham passado anteriormente). A minha opinião disso tudo? Há coisas que podem esperar. Outras, precisam ser acompanhadas de perto. Controle de quem entra, quem sai, quem circula no condomínio. Responsabilização do morador da unidade em caso de desrespeito das normas (como uso de máscara).

Enquanto a enquete e a nova decisão do síndico sobre o que fazer não sai, vim escrever este texto e refletir um pouco sobre nossa evolução enquanto sociedade – o papo é mais sociológico, aqui (embora eu não tenha pretensão de que pareça ser, estou convidando a irmos além).

Tudo isso me fez pensar que maioria dos conflitos que nós temos e que presenciamos vêm do fato de que talvez até hoje nós não tenhamos entendido o que de fato é viver em sociedade – ou, novamente trazendo para uma escala menor, viver em uma comunidade. Quando eu vivo dentro de um grupo, eu não penso só em mim. Os meus interesses não podem se sobrepor aos interesses dos outros, em determinadas situações como uma pandemia. Empatia não pode ser uma palavra banalizada e bonita, desfilando nas contas do Instagram. Ela precisa ser colocada em prática. Em uma comunidade, não existe o bem estar de uma única pessoa, se ele não for o de todos (porque essa água bate na nossa canela também).

Eu faço o mea culpa. No ano passado, comprei um caderno para planejar os meus objetivos pessoais para o ano. Eu cumpri 70% deles. Terminei o ano dizendo: bom, para o mundo e Brasil não foi um bom ano, mas pra mim foi. Ok, de fato eu tive vários acontecimentos positivos em 2020, mas a minha percepção – felizmente ou infelizmente – mudou. Não dá pra eu estar bem, não dá pra estar feliz, com quase 300 mil conterrâneos mortos. É impossível sorrir, com 3 mil pessoas morrendo por dia. E todos nós só vamos conseguir sorrir de novo, quando esse pesadelo passar. Qual o nosso papel no meio disso?

Conviver com outras pessoas, pressupõe que nós precisamos respeitar o limite da outra pessoa, e seus direitos como indivíduos, tanto quanto eu tenho meus desejos e direitos. A forma como nós ainda colocamos nossos interesses na frente dos interesses do grupo ao qual pertencemos, em situações como essa, me faz pensar que ainda precisamos amadurecer bastante a forma como vivemos em sociedade – e o jeito como nós nos enxergamos no meio dela.

Talvez seja um bom começo começar a observar mais os pássaros. E perceber o quanto eles conseguem ir mais longe, quando voam juntos.

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