Discussões Relacionamentos

Amanhã voltará tudo ao normal

Ah, eu já sei. Hoje é o “Dia Internacional da Mulher”. O dia em que você me manda flores, bombons, um recadinho no Facebook, uma figurinha no WhatsApp. Hoje é o dia de você dizer que o mundo é mais sensível e delicado por causa das mulheres, que metade do mundo é feminino e a outra metade são nossos filhos. E de dizer que eu sou a mulher da sua vida, sua princesa, sua rainha, sua patroa, a dona da sua casa.

Até a meia noite.

Amanhã volta tudo ao normal. E o normal é quando você me interrompe enquanto estou falando. Quando você tenta me explicar alguma coisa que você imagina que eu não saiba, subestimando minha inteligência e minha curiosidade. E quando você me dá uma meta inferior equiparada aos meus pares, no trabalho, imaginando que eu não tenha a mesma competência de te trazer os mesmos resultados.

Normal é quando você me proíbe de reclamar com o vizinho sobre o barulho, porque isso é o homem da casa quem deve fazer. E quando você me pergunta se eu já fiz o seu prato, porque está com fome. Ou a sua bebida. Normal é dizer que meu lugar é pilotando o fogão, e se eu cometo algum erro enquanto estou dirigindo, ah, olha só, tinha que ser mulher.

Tudo continua igual: se eu boto uma roupa bonita, eu tenho um amante. Se você bebe três latas de cerveja, ok. Se eu bebo a mesma coisa, preciso de internação. 🙂

Hoje se eu andar na rua, nada vai acontecer. Mas amanhã, volto a ter medo de coisas normais. Andar sozinha na rua, no parque, no estacionamento. Voltar tarde pra casa. Entrar em carro com motorista homem. Sentar ao lado de um homem no ônibus (ou ficar em pé perto dele). Ficar sozinha com um homem no elevador – ou dentro de casa.

Hoje tudo bem. Mas a partir da meia noite você já pode voltar a ser como antes, e fazer de mim seu objeto sexual – na melhor das hipóteses me perguntando antes, se eu quero transar. Tudo volta ao normal: eu apanho, caso me negue. Sou violada. Morro. E se eu terminar com você, morro também.

Se você quer me agradar, esqueça as flores, o cartão, os chocolates e o depoimento nas redes sociais. Se deseja me agradar, mude o seu comportamento. Não aja mais como se eu existisse para te servir. Não me trate como alguém inferior a você. Me deixe gozar também. Compartilhe as coisas comigo, as suas forças, as minhas forças. Assuma as suas fraquezas – e me deixe te ajudar. Ah, e se puder, escute o que eu tenho a dizer. Eu te trouxe o mundo: é só por mim, mulher, que você existe. Eu te pari, senti as dores do parto. Eu tenho um universo, dentro de mim. Tente fazer uma leitura dele. Eu não existo só pra você.

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