Discussões Estilo de Vida

O papel do ensino domiciliar (homeschooling) durante a pandemia

Conhecer a diferença entre o ensino à distância e o ensino domiciliar pode atenuar as suas preocupações sobre a continuidade da aprendizagem dos seus filhos, enquanto a pandemia não arrefece.

No dia 16 de Dezembro de 2020, o governador do Distrito Federal – Ibaneis Rocha (MDB***) – sancionou em Brasília uma lei autorizando o “homeschooling”, também chamado de ensino domiciliar. A norma começa a valer em Fevereiro de 2021, 45 dias depois de ter sido publicada no Diário Oficial do Distrito Federal , e possui uma cartilha com todas as diretrizes que devem ser seguidas.

Em Setembro de 2018, depois de uma discussão sobre o tema e alguns projetos apresentados, a maioria dos Ministros do Supremo Tribunal Federal entendeu que a adoção da educação domiciliar no Brasil deveria ser fundamentada por uma lei que assegurasse dois fatores que são considerados críticos na educação: a avaliação do aprendizado pelo aluno e a socialização com outros colegas. De lá pra cá, alguns projetos a favor e vários movimentos contra a educação domiciliar foram apresentados, sem que tenham sido de fato colocados em votação.

O LBB trouxe este assunto à tona 1 ano depois de termos experienciado pela primeira vez em nossas rotinas uma quarentena, fruto de uma pandemia sem precedentes em nossas gerações. Durante este tempo, muitos foram os desafios com os quais nos deparamos e fomos forçados a aprender a conviver, sendo um deles a adaptação dos moldes educacionais para dentro de casa, ou mesmo a total interrupção das aulas. Em Março do ano passado, nós não imaginávamos que este desafio se prolongaria a ponto de fazer aniversário. Fato é que agora, 1 ano depois, vemos com maior clareza o impacto que o distanciamento da escola, das aulas e do ambiente escolar vem causando sobre crianças e adolescentes: estresse, labilidade emocional, retrocessos na socialização e outros problemas físicos e emocionais que comprometem o bem estar das crianças e também de seus pais.

Encarando a realidade, a volta às aulas sem interrupções, sem receios e com total segurança não parece ser um desejo possível à curto prazo. Ainda enfrentamos idas e vindas. Fase verde, ok, vamos à escola. Fase vermelha: opa, crianças, voltem pra casa. Não há rendimento na aprendizagem e proposta pedagógica que resista à tanta instabilidade e desestruturação. Buscar culpados não é o x da questão. A pergunta é: como podemos ajudar?

Se pensarmos no conceito mais puro de Política e o que ela representa de fato: uma célula em que participam toda a sociedade em seus diversos papéis, seria natural que nos perguntássemos como nós podemos ajudar nossas crianças durante esta fase – e que fossemos em busca de respostas.

“Percebo que a minha neta já tem a necessidade de aprender a ler”, disse Ivone Sampaio, 64 anos. “Ela já quer ‘ler’ as histórias dos livros e gibis para a família”. A alfabetização é um processo natural e inerente ao desenvolvimento da criança. A provocação que o LBB quer trazer neste texto é: não seria adequado que, no lugar de queremos forçar um movimento de ida às escolas, nada seguro e nem saudável neste momento, pensássemos em outras maneiras de levar o ensino até o aluno? E dentro deste contexto, não seria o homeschooling uma saída satisfatória neste cenário?

Mas afinal, o que é homeschooling?

Homeschooling é pura e simplesmente o ato de educar os filhos em casa, por isso ele também é chamado de “educação domiciliar”. Embora no Brasil ainda sejamos bastante resistentes a esta modalidade de ensino e por diversas razões, ela já é praticada por alguns grupos aqui e bastante disseminada e vivenciada em mais de 63 países do mundo, entre eles: Estados Unidos, África do Sul, Rússia, Reino Unido, Canadá, França e Finlândia.

Na prática do homeschooling, os pais definem se eles mesmos aplicarão os conteúdos (depois de se prepararem) ou se contratarão professores particulares – e também definem o conteúdo a ser aplicado. Os adeptos e defensores do homeschooling dizem que ensinar uma criança em casa não significa pura e simplesmente a transferência do conteúdo escolar para dentro de casa, mas a escolha personalizada de conteúdos, com base no que a criança gosta e em suas inclinações naturais. Dentro deste contexto, por exemplo, os pais poderiam pesquisar e ensinar música clássica para seu filho que se interessa naturalmente por este assunto.

Não é novidade para ninguém que, independentemente do sistema pedagógico que se use nas escolas, as brincadeiras individuais e em grupo são parte do currículo pedagógico infantil. Por que dentro de casa seria diferente? O que queremos dizer com isso é a mudança da nossa mentalidade, que entende o ensino domiciliar como uma criança estudando Ciências dentro de casa, quando ela pode estudar o mesmo assunto em um museu, no zoológico, etc – e obter os mesmos resultados. Experiências empíricas contribuem, também, para o aprendizado.

Entre as vantagens desta modalidade de ensino identificadas por seus defensores e praticantes, estão: o conforto, a segurança, a qualidade e os benefícios de se dar aulas para um grupo menor, ter controle sobre assuntos ensinados e abordagens, eliminação de cenários de bullying e de possíveis abusos.

O que diz a turma do contra

Algumas das críticas contundentes a este sistema de ensino apontam para a falta de socialização (que defensores dizem ser um argumento ilusório, na medida em que uma criança não socializa apenas na escola, mas também nos grupos sociais que frequenta); a ausência de formação pedagógica adequada, ausência de avaliação de aprendizado, ausência de uma visão multidisciplinar e diversa que faça o aluno conviver e aprender a enxergar diferenças, e não apenas entender o mundo dentro de seu próprio contexto, dificuldade na detecção de abusos (paradoxalmente), já que muitos abusos sofridos pelas crianças são feitos por pessoas próximas. Estas pessoas defendem melhorias no sistema de ensino, no lugar de afastar os alunos do ambiente escolar.

Só que a gente quer trazer esta discussão para o contexto em que estamos vivendo.

E a pandemia?

Giovanna, a neta da nossa entrevistada (a vovó Ivone), é uma criança que já está naturalmente buscando a alfabetização. Ela quer ler histórias, ela quer escrever o seu nome e o nome dos pais. Quem sabe quando isso será possível, dentro do ambiente escolar, com segurança e tranquilidade? Nós sabemos que este assunto ainda será bastante discutido no Brasil, mas acreditamos que o homeschooling é uma boa maneira de não perdermos o desenvolvimento das crianças de vista, enquanto nossos representantes puxam o freio da pandemia. Não se está dizendo que devamos tirar as crianças da escola e passar a dar aulas dentro de casa, mas que, durante uma pandemia, essa seria uma opção adequada ao contexto em que vivemos, neste país e neste cenário político.

Seria satisfatório comparar e diferenciar o ensino à distância de homeschooling. Enquanto o primeiro retém o aluno em frente a uma tela de computador ou a um dispositivo móvel, onde alguns têm acesso à estrutura necessária pra isso dar certo e outros não e onde professores disputam a atenção destes alunos, no segundo caso a criança não necessariamente precisa do computador e do acesso à internet para as aulas acontecerem, já que ele pode fazer uso de livros, brincadeiras, filmes e uma infinidade de ferramentas mais lúdicas e orgânicas para a aprendizagem.

Como começar?

O portal Homeschooling Brasil tem algumas dicas de como estruturar este caminho pedagógico das crianças, dentro de casa. Acesse os sites:

Outras leituras complementares:

Pais e responsáveis têm dois problemas, em 2021. Um é se proteger do Coronavírus – e proteger suas famílias. E o outro, caso tenham filhos, é enfrentar as consequências que a interrupção da consistência e da estrutura da aprendizagem na escola já está causando nas crianças e como evitar que ela impacte o seu desenvolvimento. Use inovações e boas práticas a seu favor. Enquanto a tempestade não acalma, faça você mesma um bom trabalho com as ferramentas que têm em mãos.

(***) A lei proposta pelo governador de Brasília – que está sendo denunciado por crimes de responsabilidade – foi um ponto de partida para a discussão da adoção do ensino domiciliar no Brasil, na medida em que abriu precedentes para o retorno da discussão. Isso não significa que nós simpatizemos ou apoiemos a gestão do Sr Ibaneis Rocha.

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