Bem Estar

Como enfrento minhas crises de ansiedade

Um domingo destes eu levantei, coloquei a mão no coração e senti que estava com a frequência cardíaca muito alta. Isso desengatou uma crise de ansiedade que acabou me levando até o hospital, na medida em que percebi que os batimentos não diminuíam. Nós fizemos todos os exames, que estavam em ordem – eu não estava com nenhuma infecção. O que os médicos te dizem quando você apresenta sintomas físicos e seus exames estão em ordem? Pois é, me deram um Rivotril, que tomei, e voltei para casa sem respostas, tentando acreditar no que tinham me dito: você está em uma crise de ansiedade.

Eu tinha 22 anos quando tive minha primeira crise de ansiedade e a único ataque de pânico que havia sentido. Estava prestes a estrear na minha primeira peça de teatro, papel principal, eu estava literalmente em pânico. Pra piorar, meu trabalho não ocupava a minha cabeça. O ócio me despertou uma crise terrível, que me levou a ligar para casa e dizer pra minha mãe: “não consigo respirar!!!”. Depois disso vieram as somatizações: falta de ar, pontadas na cabeça, etc. Enquanto esperava para ser atendida no médico que depois me disse que eu não tinha nada, eu folheei uma revista especial sobre a Síndrome do Pânico, que estava em cima da mesa de centro da sala de espera. Foi o suficiente pra eu me reconhecer ali e entender que aquilo que eu vinha sentido eram sintomas de um ataque de pânico. Algumas vezes, ao longo de todos estes anos, eu tenho algum desconforto respiratório, que resolvo parando e respirando fundo. Este é o limite que estabeleci para a minha ansiedade.

Voltando ao hospital e ao domingo passado, tentei me convencer de que eu estava no meio de uma crise de ansiedade, mas eu sabia que havia alguma coisa errada. Porque existe uma diferença entre uma crise de ansiedade e quando realmente tem alguma coisa errada. Pra perceber esta diferença, a gente precisa se conhecer muito bem. Quando tem alguma coisa errada, você não tem dúvidas disso e sabe que precisa agir, imediatamente.

Eu sei quais são os gatilhos que me levam a uma crise de ansiedade e com o passar do tempo eu entendi que a melhor maneira de domá-los seria aprendendo a conviver com os sentimentos que me levam até ela – e não evitá-los. No meu caso, é o medo. Medo do desconhecido. Medo de sentir coisas desconhecidas, que estejam fora do padrão de como e quem eu sou. Só que a vida não nos poupa de sentir medo, insegurança e uma série de outros sentimentos desconfortáveis. Só aprendendo a conviver com eles é que a gente se fortalece e, no lugar de eles tomarem conta da nossa mente, a nossa mente é que está no controle.

Não cheguei a tomar remédios pra ansiedade – não sei se algum dia vou precisar. E eu não vou deixar de tomar, se precisar. Mas sempre manterei em mente que a minha mente está no controle. Dos 22 anos até agora, ela esteve. Vem aprendendo a se fortalecer, a reconhecer o que não tem fundamento, a enfrentar o que tem. Domo minhas crises de ansiedade fazendo caminhadas. Ocupando a cabeça com uma série, uma oração meditativa (o Terço), controle da respiração e algum fitoterápico. Com tudo isso não estou dizendo que você não deva ir ao médico, estou dizendo que há muitas coisas que estão na sua mão em fazer, para contribuir para melhor lidar com esses episódios.

Uma das melhores maneiras de se lidar com a ansiedade é se conhecendo muito bem. Você precisa saber o que te causa uma crise e quando todo mundo te diria: “drible os gatilhos”, eu te diria: “enfrente seus gatilhos”. Vamos pensar nestes gatilhos como “medo”. O medo é uma defesa natural do nosso cérebro, pra nos proteger de ameaças. Daquilo que a gente entende que é uma ameaça. Se você foge desta ameaça, o teu cérebro entende que faz sentido ter medo naquela situação, porque a ameaça é real. O resultado prático disso é que você sempre vai ter medo, em situações análogas. Se você enfrenta esta ameaça, o resultado é que das próximas vezes ela deixa de te assustar tanto, até que não seja mais considerada uma ameaça. Enquanto fugirmos dos sentimentos que nos são desconfortáveis, o desconforto será recorrente. Sempre serão desconfortáveis e sempre nos controlarão. A nossa vida é repleta de bons momentos e bons sentimentos, mas também dos desconfortáveis e pesarosos. Sentir medo, ansiedade, desconforto e tristeza – é natural e parte da vida. Tenha em mente que você é capaz de estar no controle, a sua mente obedece a você – ao que você cria, ao que você faz ela acreditar. É preciso entender a estrutura da sua mente, que tipos de medos você possui, por quais motivos e o que você pode fazer para destrinchá-los. Você vai perceber que eles vão perdendo a força.

Posso dar um exemplo perfeito, disso. É assim:

Eu tinha tanto medo de andar de avião, que dispensei a oportunidade de conhecer vários países do mundo, já que trabalhei em duas companhias aéreas mas não utilizava o benefício de voar praticamente de graça, porque tinha medo. Não conseguia conceber a ideia de passar dez ou mais horas dentro de um tubo, a muitos mil pés. Até que um dia foi necessário que eu fizesse uma viagem a trabalho. Na véspera da viagem, eu busquei informações sobre aquilo que me gerava mais medo (turbulência), e outras coisas. O que aconteceu? Naquele ano, fiz 3 viagens internacionais. Voei 11 vezes no total. O resultado disso? O meu medo foi perdendo a força e hoje em dia não existe mais, a ponto de eu sentir falta de voar. Eu achava que tinha medo de voar. No entanto, meu medo se baseava em coisas que a minha própria mente tinha criado, mas tecnicamente, pesquisando sobre estas “coisas”, o que descobri é que nada daquilo era de fato uma ameaça.

Todos os medos são assim. Eles nos dominam, enquanto não os encaramos. Na medida em que nós os destrinchamos, eles vão perdendo a força, até deixarem de ser medos.

Quando você souber quais são seus gatilhos, não fuja destas situações. Passe por elas sabendo que você é forte e capaz de fazer isso, porque está no controle. Conheça seu corpo, seu organismo, como ele reage, como você respira. Conheça sua mente, o que teme, o que te paralisa. Só assim você vai conseguir diferenciar uma crise de ansiedade de um problema real. E só assim vai responder a este problema com a assertividade, rapidez e calma necessárias.

Embora eu tenha ficado bem pilhada e muito preocupada com o que estivesse acontecendo comigo, no domingo passado, eu sabia que havia alguma coisa errada, porque sei qual é a minha frequência cardíaca normal em repouso. Não consegui descansar enquanto não descobri a razão. Até que descobri: na verdade o que tinha elevado tanto a minha frequência cardíaca não foi uma crise de ansiedade, mas o fato de que há três dias eu estava tomando o remédio errado. No lugar de tomar o Atenolol, que abaixa os batimentos, eu estava tomando um remédio parecido em tamanho e cor, do mesmo fabricante, mas que não era o Atenolol e, ao contrário, elevava os batimentos cardíacos. Não era ansiedade, era uma ameaça real.

Costumo dizer aqui em casa que pra tudo na vida existe uma explicação. Com a nossa saúde é a mesma coisa: para tudo o que nós sentimos, existe uma explicação. No lugar de temer o que pode te acontecer, foque sua mente em descobrir a causa do que está sentindo – e então vá e resolva.

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