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[Resenha] Mulheres da Minha Alma, Isabel Allende

O novo livro de memórias de Isabel Allende, destrincha o patriarcado e levanta o feminismo como a maior arma de uma sociedade que busca evolução e delicadeza.

Os editores de Isabel Allende, a célebre autora de “Casa dos Espíritos” e ícone da literatura latino-americana, não menos do que é um ícone do feminismo, fizeram-lhe um convite: queriam que ela escrevesse sobre feminismo.

Isabel destrinchou sua própria vida nas páginas do editor de texto. Começou por nos contar como foi sua infância e por que o feminismo começou a se tornar um assunto importante, para ela, desde então. Suas memórias são mais doloridas do que afetivas, uma vez que desde bem cedo já tinha um senso de análise muito realista e claro do que era o mundo e de como ele funcionava. Ela entendeu desde cedo – com a ajuda de algumas pessoas da família e da crueza de suas interpretações – como as coisas funcionavam para os homens, e como funcionavam para as mulheres.

Ao longo das páginas, sem compromisso à uma divisão de capítulos, expondo seus pensamentos e ideias livremente e fluidamente conforme os assuntos avançam e se interligam, Isabel expõe as suas raízes, sua formação, a sua cultura familiar e a maneira como reagiu à ela (leia-se ao machismo patriarcal da época, e que ainda conhecemos bem), suas influências em cada fase da vida, assim como suas próprias dores e tragédias – como a perda da filha – e como vem reagindo de uma maneira serena e bem humorada às novidades de que a velhice (que ela mesma chama assim) lhe traz.

Isabel identifica mulheres que admira e que observa. Seja porque façam um trabalho que lhe desperte admiração, seja porque em algum momento de sua própria vida elas foram “bruxas boas e importantes”, seja por pura influência e identificação. Entre elas, sua primeira agente literária. Sua mãe. Algumas escritoras essencialmente feministas. Ativistas, etc.

Com um humor espontâneo e sofisticado, ri de si mesma enquanto se auto-analisa em frente a um espelho sincero e livre. Nos faz enxergar o tecido patriarcal com que o mundo está envolto, suas estruturas e, ao mesmo tempo que nos desanima com a crueza fulminante da realidade, também compartilha de sua própria esperança e de seu próprio otimismo, ao mostrar até onde chegamos e que, em vez de o copo estar meio vazio, ele está na verdade meio cheio.

Não se surpreenda se estiver chorando em suas últimas páginas, onde ela divide o lirismo do seu olhar, em plenos dias de pandemia e quarentena, sem correr o risco de se enveredar pelo sentimentalismo. Isabel Allende sempre teve esta grande habilidade, a de falar de quem nós somos, “o que queremos” e o que sentimos, com talento minucioso e insondável, com força, elegância e delicadeza.

“chamo de volta minha alma, que ainda anda solta na esfera dos sonhos, e agradeço o que tenho, especialmente o amor, a saúde e a escrita”.

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