Bem Estar Saúde

O relato de uma ooforectomia – e por que você não deveria ter medo de fazer exames

29 de Janeiro de 2020. Um mundo normal e cheio de alegrias. Uma mulher indo até um hospital realizar um check-up prescrito pelo seu cardiologista. Sim, essa mulher soy djo. Passei metade daquele dia fazendo quase todos os exames. O ultimo deveria ter sido o teste de esforço que não fiz porque estava sentindo muita dor de cabeça – o que fez a minha pressão arterial aumentar. Tudo bem, é só alguém falar um pouco mais alto comigo, que a minha pressão arterial aumenta. Mas, naquele dia, achamos melhor adiar aquele exame e o Mapa. Pra quem não sabe o que é um MAPA, é um aparelhinho de medir pressão que fica pendurado em você por 24 horas, e que vai determinar a sua pressão arterial média durante este período.

Antes destes dois exames, no entanto, eu tomei um susto, na sala de ultrassonografia. Fizeram ultrassonografias do meu pescoço à minha pelve, e estava dando tudo certo, quase acabando, mas a Dra Fernanda me disse que havia um nódulo no meu ovário direito e que ela pediria uma ressonância magnética para podermos avaliar melhor.

Veja você: eu nunca na vida tinha feito uma ressonância. Entrei em pânico. Liguei para o meu Ginecologista (o Dr Rubens – que nem é médico, é anjo), que me encaminhou para fazer a ressonância no dia seguinte. Diligente, fez contato com os médicos que fizeram o exame e me ligou (eu estava voltando pra casa) pra dar a notícia: calma! Não é nada demais! É só um cisto de corpo lúteo. Volte ao consultório em Março (isso era 30 de Janeiro) para continuarmos seus tratamentos e pra revermos este cisto.

Eu voltei em Março?

Não, eu não voltei em Março. Eu voltei em Setembro. Porque em Março a gente tinha uma quarentena pra lidar!!!

Em Setembro, eu estava muito a fim de mudar meu estilo de vida por conta do meu declínio hormonal. Eu reparei que atividade física melhorava boa parte dos sintomas, mas não poderia começar nada sem o ok do meu cardiologista. Entretanto, se eu retornasse ao consultório dele em Setembro, levando exames de Janeiro, ele me mandaria fazer tudo de novo. Como eu ainda estava com o pedido médico, eu resolvi refazer os exames.

A mesma médica radiologista fez todas as minhas ultrassonografias, e novamente estava dando tudo certo até chegar na pelve. O nódulo tinha dobrado de tamanho – e estava vascularizado. Importante dizer:

Eu não sentia nada.

Eu não tinha dor.

Nada. Nenhum sintoma local.

Refiz a ressonância 1 semana depois. O exame dizia que aparentemente se tratava de um tumor benigno, com seus nomes e termos médicos, com baixas chances de malignidade.

Bacana, então tá bom. Já tava dando o jogo como ganho.

Calma, mocinha. Vamos ter que tirar ele dali! Não vamos ficar assistindo ele crescer e prejudicar tudo ao redor. E claro, mandar para biópsia para confirmação da benignidade.

BIÓPSIA??? Tem alguns termos médicos que nos arregalam os olhos. Este é um deles. O outro é “a-nes-te-si-a” (mas deste, eu falo mais pra frente).

Enquanto isso, duas pessoas próximas a mim lidando com o câncer. Minha cabeça pirou!

Eu tinha compromissos pessoais, eu tinha a burocracia de uma transação recentemente feita pra conduzir, e eu tinha uma cirurgia que precisava marcar. E não marquei. E disse para o meu médico PERAÍ POR FAVOR. Ele esperou, mas creio que me conheça bem, um dia deve ter pensado: se eu deixar por conta dela, ela vai aparecer aqui só em Março de 2021. Sábio que é, me escreveu: Vamos marcar a cirurgia?

Marcamos a cirurgia.

Sobre a Cirurgia

16 de Outubro.

Uma São Paulo capengando, lidando com o arrefecimento de uma pandemia. Lá fui eu para a consulta médica, antes da cirurgia. Máscara, álcool gel e uma lista de perguntas pra fazer, no meu celular.

O médico me explicou tudo o que eu deveria saber, e me mostrou onde seriam feitas as incisões. E em uma semana, entre aquela consulta e o dia da cirurgia, tentei criar todas as desculpas possíveis para desmarcá-la. Só que me lembrei do meu planner e da meta do bimestre, que era marcar os meus exames e resolver minhas pendências médicas – vamos até o fim, Melissa.

A cirurgia estava marcada para a manhã do dia 22 de Outubro, eu me internei 2 horas antes. Por conta de alguns probleminhas burocráticos (e, talvez, de pessoas ansiosas ao redor), eu comecei a ficar preocupadíssima, eu era uma panela de pressão – e o resultado disso foi um anestesista entrando no quarto com os olhos arregalados: menina, por que a sua pressão está tão alta, assim???

Ele não demorou muito pra entender o que estava acontecendo comigo e se dispôs a tentar resolver meus problemas, anseios e angústias (não vou entrar em detalhes , só enaltecer seu espírito e sensibilidade elevadíssimos). Disse ele, para uma Melissa beeeem brava, que uma vez que estou tratando minha hipertensão, não havia riscos na cirurgia. Eu estava com medo – tinha entrado no hospital, com medo. Tinha ido dormir na noite anterior, com medo. Eu nasci com medo. E a minha mãe estava apreensiva. Então eu fiquei com muito mais medo porque a minha mãe estava apreensiva. Ele resolveu me dar um comprimido pra baixar a minha bola (adorei o termo).

Troquei a minha roupa, deitei na cama, tomei o Dormonid. Veio o menino que me conduziria até o centro cirúrgico e que imediatamente me perguntou se o remédio que eu tinha tomado era em comprimido ou injetável (pois estava acordadíssima). Creio que levamos menos de 10 minutos para irmos de um prédio até o outro, onde era o CC. Quando entrei na sala, dei um tchauzinho para o anestesista:

_ Oie!!!!! – e ri da cara dele, lógico. O remédio não tinha feito nem cócegas.

_ Melissa, há quanto tempo você tomou o remédio?

_ Há uns 20 minutos.

_ Ah, tá. Então daqui a pouco ele começa a fazer efeito.

Me passaram da maca para a mesa de cirurgia. Cuidado para não cair, Melissa, a mesa é mais estreita. Eu fechei os olhos e comecei a tentar mentalizar as orações que a minha mãe me ensinou. São Bento Águas Bentas Cheia de Graça o Senhor é Convosco Jesus Cristo no Altar O que Tiver de Mal no Meu Pai Nosso que Estais No Céu…. Enquanto isso, de olhos fechados, senti quando o anestesista amarrou a borrachinha no meu braço esquerdo e começou a tentar encontrar minha veia.

_ Menina, cadê sua veia??? Você não tem veia!!!

E uma Melissa bastante afetada tentou lhe responder e mostrar que a minha melhor veia ficava na parte de cima do meu braço, e não na parte branquinha. Não tendo conseguido, mencionei a minha mão. Mão… mão.

A equipe já tinha se apresentado e me dito quem eram, que iriam cuidar de mim. Lembro de Roberta, lembro de Tamires. Mas tinha mais uma, de quem não lembro o nome e nem o rosto, porque ela estava atrás de mim. Estavam tirando a minha pressão, no braço direito, estendido em uma mesa auxiliar. Eu escutava os meus batimentos cardíacos:

tu tu tu tu tutututututututututut tu tu tu tu tututututututututut tu tu tu tu tutututututu

Tamires vestiu as meias nas minhas pernas que tremiam de medo. E depois disso, as mulheres da sala perguntaram ao anestesista se poderiam me sentar. Ele assentiu. Eu sentei e baixei a cabeça.

_ Nossa, ela sabe direitinho qual a posição a se fazer!

E então eu respondi a última coisa de que me lembro:

_ Eu vi na internet.

The End. Não lembro de mais nada. Nem da picada da anestesia nas minhas costas, nem de terem me deitado de volta.

Depois da Cirurgia

Acordei com a voz do anestesista me chamando como o meu pai me chamava quando dormia demais:

_ Meliiiiiissaaaaaaa…..

Não morri, que bom.

E escutei a enfermeira avisando que ia me tirar não sei o quê. Fui para a área do pós operatório (ou talvez eu já estivesse lá???? Não faço ideia), onde minha preocupação maior era mexer os pés mexer os pés mexer os pés. Tava conseguindo mexer os pés: MARAVILHA. Avisaram o anestesista que ligariam meu O2. Ele veio falar comigo, disse que conseguiram baixar minha pressão durante a cirurgia para 11×7 e que daqui a pouco você vai conseguir mexer os pés, Melissa – e me viu mexendo os pés – ah, você já está mexendo, ótimo. Depois, veio o cirurgião (meu médico ginecologista) me avisar o que tinha feito, só lembro de ele dizendo: foi tudo bem, removi isso, removi aquilo, depois eu passo lá. Ele disse muitas coisas, mas é do que eu me lembro. Fui conduzida para o quarto (onde estava minha mãe) certo tempo depois, eu achei que fossem cerca de 30 minutos depois, mas segundo minha mãe foram horasssss depois.

E então soma-se a toda esta história a rotina normal de uma mulher convalescente recém operada e que teve seu ovário e trompas do lado direito removidos. Oi Melissa, eu sou a Ana, vim medir seus sinais vitais. Oi Melissa, eu sou o Edison, eu vim aplicar sua medicação. Oi Melissa, nós somos alunas da Faculdade de Enfermagem, você se importa se nós avaliarmos seus sinais vitais? Oi Melissa, vim trazer sua dieta. Oi sou a Enfermeira Patrícia, queria conhecer a Melissa, ouvi dizer que você vai me deixar, hoje. 600ml de urina, doutor. Vocês querem que apague esta luz no rosto de vocês? Remova esse aparelhinho, aí, eu quero ela caminhando pelo quarto. Eu caprichei nos seus remédios para dor. Mãe, você pode subir a cortina, por favor?

Eu estava bem, sem dores e com muita muita fome.

No dia seguinte, recebi alta e vim para casa. Ah, antes passei na minha agência bancária porque tinha que assinar um contrato (!!!!). Sinto-me ótima, não tenho dores, não tive sangramento e recebi uns dias para me recuperar da cirurgia.

O tumor, era realmente benigno.

Mas, poderia não ser. O que me leva a modificar um pouco a minha filosofia de vida, de agora em diante.

Quem procura, acha. Mas quem acha, cura.

Mulheres!!! Façam seus exames preventivos!!!!! E não tenham medo: Nada é tão assustador assim, porque nós somos fortes quando precisamos ser.

(Agradeço a todos os profissionais da saúde que estiveram comigo no dia 22 e 23 de Outubro, com IMENSO carinho).

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