Reflexões

Quem você era antes da quarentena?

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A mídia fez bastante alarde no que se começou a chamar de “novo normal”, a partir dessa realidade que se criou, sem a escolha de ninguém, com o novo coronavírus. Primeiro nós achamos que essa água não bateria na gente, tava lá na China: China é longe. Depois, quando começou a chegar mais perto, nós entramos em pânico e esvaziamos as prateleiras do supermercado, desabastecendo nossos conterrâneos, já que todo o estoque de álcool em gel e de papéis higiênicos estavam na nossa casa. Fomos, de casa, assistindo a subida da curva dos outros lugares do mundo e nos lamentando por conta das mortes na Itália. Aí essa água começou a subir por aqui, em nosso espaço.  Passamos a expandir um pouco nossa mente, deixamos bilhetes nas portas dos vizinhos mais velhos nos oferecendo para fazer supermercado ou passear com o cachorro. Fizemos doações, orações, vibrações. A água foi subindo, subindo, subindo. Vieram as máscaras – agora combinamos máscaras com as roupas que estamos usando. Comunidades se uniram pra se proteger. Pessoas tentaram ajudar microempreendedores e microempresários. Empresas doaram milhões para compra de novos respiradores, entre outras coisas. Você percebeu que seu grande emprego que você adora não é nem de longe um serviço essencial, mas que o entregador da sua comida e o coletor de lixo, são. Você não consegue entrar em um metrô ou ônibus se não estiver usando uma máscara, você nunca guarda um cartão de crédito sem passar um pano com álcool antes. Você não entra em uma rotisserie pra comprar o almoço de domingo sem que alguém meça sua temperatura.

É o novo normal.

Nós já conseguimos vislumbrar nosso futuro de atirar um jato de WAP nas compras do mês. De manter um frasco de álcool e um paninho do lado da despensa. Já conseguimos entender que as máscaras farão parte da nossa gaveta de meias e calcinhas.

Digamos portanto que a macro situação esteja bem compreendida (ao menos por parte dos sensatos) e bastante clara. O home office será uma realidade mais próxima e muitas empresas vão aderir a ela definitivamente, entendendo a flexibilidade e até economia que proporciona. Não à toa, bichos silvestres resolveram dar um rolê pelas cidades, agora menos poluídas e mais vazias. Galerinhas que criaram ou que criarem plataformas como o Zoom ganharão dinheiro à rodo, porque as reuniões virtuais serão normais, raro mesmo será uma viagem à trabalho. Eventos longos e populosos talvez deem lugar à eventos híbridos – e as vantagens de reuniões 1:1 online ficarão nítidas: mais foco, menos distrações, maior aproveitamento da reunião.

As pessoas nunca mais vão entrar em casa com o calçado que andaram na rua. As pessoas higienizarão as mãos com mais frequência. As pessoas pensarão duas vezes antes de sairem de casa se estiverem muito gripadas.

Só que ao mesmo tempo em que uma nova era corre e faz com que nos adaptemos a ela como grupos, células, comunidades e empresas, um processo muito íntimo se desenvolve  intrinsecamente e pode ser que você ainda não tenha se dado conta. É aqui que queríamos chegar.

Você já se perguntou quem era você, antes da quarentena?

Perdemos 50.000 brasileiros

Pode ser que esse questionamento surja quando você perder alguém próximo. Alguém que tinha a vida toda pela frente, que estava em sua plena forma e, assim como você, tinha planos e projetos em andamento – além de amores, vários deles. Quando isso aperta o nosso coração, não é da marca de óculos que a pessoa usava, se ela tinha ou não o carro do ano na garagem, se frequentava os restaurantes mais top – que vai nos fazer lembrar das pessoas que gostávamos. Nós lembraremos do que não é palpável: das risadas, do sorriso, do brilho nos olhos, do olhar de bondade, de como era nossa interação com essa pessoa e que tipo de coisas gostávamos de fazer juntos (as). Nós nos lembraremos das particularidades que só aquela pessoa tinha e do que se foi, junto com ela. Você nunca mais vai escutar sua amiga cantar aquela música que ela adorava.

O que faz com que tudo o que nós depositamos valor seja questionado – e ridicularizado. Não se surpreenda se você descobrir que as coisas em que debruçava boa parte do seu tempo eram pura bobagem e nada disso realmente tem alguma serventia. Que comprar 8 cores de um mesmo modelo de blusa chega a ser ridículo. Que a felicidade ao gastar uma grana pra trocar de celular tem dias contados… e que isso, na verdade, não importa…

Que as pessoas que te amam vão amar você de qualquer jeito: esteja você usando um Dolce & Gabbana ou uma roupa comprada na loja de departamentos do shopping. Sabe por quê? Porque o que realmente importa é VOCÊ e quem você é – e nada mais.

A pandemia faz nossas falsas crenças serem reveladas, descortinadas – e faz com que a gente questione a maneira como levava a vida até agora, quando nossa maior carência passou a ser exatamente tudo o que não se pode TER: o toque, o abraço, o estar junto, o estar perto, o sorriso ou a companhia de alguém. Ou, sentir o vento sacudir o cabelo, sentir os pés pisarem na grama molhada, sentir a ondinha se quebrar nos nossos tornozelos, escutar um passarinho cantar no seu telhado, ver seus pais rirem durante o jantar, ou seu pai caminhar com o neto de mãos dadas, ou o sorriso do seu filho.

A gente passa a perceber que não adianta eu estar bem e você não, ou você estar e eu não – estamos todos conectados. E que não dá pra pensar em ir além ou chegar além sem olhar pro lugar onde a gente mora, e cuidar daquilo que eu, você, essa geração e as futuras precisamos: água, recursos naturais, nosso planeta, nossas cidades.

Quem você era, antes da quarentena?

Se aquela pessoa tá ficando longe, se está perdendo a força, se quase não existe mais, isso é um bom sinal. Sinal de transformação. Pra transformar, dói. Pra sair do lugar, precisa mudar. E mudar é difícil. Crescer dá trabalho. O que a gente quer é continuar no quentinho-confortável da nossa realidade mais previsível. Aquela em que nós abastecemos nossos egos, nossas vaidades, nossas carências.

Quem imaginaria que um campo de futebol viraria um hospital de campanha? Que pessoas sairiam aplaudidas de um hospital? Que outras não poderiam sequer se despedir dos seus amores?

Quem imaginaria ver a notícia de mais de mil mortos (o equivalente à queda de tres aviões) por dia?

Que artistas fariam showzinhos no Instagram, que o Skank adiaria o show de despedida da turnê e lotaria 10 mineirões em sua primeira Live?

Quem iria imaginar que o sol faria tanta falta? Que entrar e sair da casa de alguém sem poder lhe dar um abraço nos despedaçaria tanto? Que sentiríamos saudades do cara da mesa ao lado – e do barulhinho que ele faz enquanto usa o teclado?

Ei, quem você era antes da quarentena?

Aposto que já não se lembra mais.

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