Reflexões

120 dias do lado de cá da janela

Quando a única opção pra driblar a mesmice e o tédio é fazer todos os dias a mesma coisa de um jeito diferente.

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Tenho notado um padrão no resultado das minhas frustrações. Toda vez que eu me frustro com alguma situação, tendo a recriá-la. Refazê-la. Ou, fazer a mesma coisa de um jeito diferente. Eu não tinha notado no quanto isso é importante, o que podemos chamar de nos reinventarmos, importante de modo especial durante a quarentena, onde nossas opções de distração são limitadas.

Eu teria passado o domingo deitada na grama do parque, sobre uma toalha xadrezinha, com um ou dois cachorros do lado, depois de ter bebido caldo de cana. Não sendo possível, como é que vou fazer pra que este domingo seja tão legal quanto os outros milhares que se passaram desde o início da quarentena? (Nota: a mamãe sugeriu eu trocar a palavra “milhares” por outra e não ser tão exagerada – ‘foram só alguns domingos, Melissa´ – mas jogada aos seus pés eu sou mesmo exagerada, senão não seria eu!)

Alguém consegue ter uma ideia melhor contra o tédio da rotina do que fazer a mesma coisa de um jeito diferente?

Essa técnica – que não foi uma criação, foi um padrão comportamental do qual me dei conta enquanto estava fazendo bicicleta hoje de manhã – pode servir para as mais diversas situações.

  • Se você precisa de mais organização na maneira como gerencia seu trabalho ou seus projetos, faça de novo, de um jeito diferente.
  • Se você precisa de mais motivação, faça novamente, com mais motivação.
  • Se um relacionamento não deu certo, tente de novo, de um jeito diferente.

Olhar novamente, de um jeito novo

Tem um texto do Otto Lara Resende que não me canso de citar, que se chama Vista Cansada. Neste texto ele chama a atenção para como com o passar do tempo nosso olhar deixa de estar atento às coisas (e pessoas) ao nosso redor, e como até um bebê consegue ter maior frescor no olhar do que a gente.

Ao que essa técnica de tentar de novo, também se aplica a este caso: olhe de novo!

E quando eu olho de novo, eu vejo uma coisa que antes não tinha reparado. E aquilo ganha um sentido novo pra mim. Não é difícil de entender: é o que acontece quando você assiste Titanic pela décima vez (sem hipérboles agora) e vai reparar em alguma coisa que não tinha reparado antes – nem que seja a marca do relógio de parede atrás do Jack quando a Rose está subindo as escadas. Ou quando relê Dom Casmurro e agora mudou de opinião sobre a resposta para aquela velha pergunta… (só vai entender quem leu!).

Olhar de novo é a coisa mais maneira que a gente pode fazer por nós mesmos – muitas vezes também por outras pessoas. Pode ser assim que você vai reparar em alguém especial. Pode ser assim que vai perceber que determinada pessoa não era nada do que você achou que era. Pode ser assim que vai desconstruir suas opiniões formadonas (a mamãe perguntou se esta palavra está certa – ´é formadonas mesmo?´ – sim, é formadonas mesmo!) sobre alguém e lhe dar a chance de te mostrar que companhia incrível essa pessoa é – e muitas vezes é você quem vai desejar que alguém te olhe de novo.

Estou em casa desde o dia 06 de Março. Tenho um pouco de medo de me aventurar do lado de fora e levar o vírus pra dentro da minha casa. Portanto, tenho tido que me reinventar todos os dias para não surtar driblar pensamentos deprês e os gatilhos que podem me levar aos tais pensamentos deprês (como medo, tédio, ansiedade, incerteza sobre o futuro, etc).

A lista pequenina de coisas que tem que me feito sorrir vale a pena ser compartilhada!

  • Ler no Kindle é ótimo e ler mais de um livro ao mesmo tempo não é tão complicado quanto achei que fosse
  • Assistir um TED de 15 minutos pode bombardear minha mente com sinapses novas
  • E criar sinapses novas é ótimo pra evitar o Alzheimer (devemos nos preocupar com isso, especialmente por sermos mulheres)
  • Escutar podcasts é o máximo e você aproveita um tempo à toa (no trânsito, fazendo exercícios), ocupando sua cabeça com coisas que vão te fazer bem.
  • Existe uma coisa chamada Pink Noises, que hipnotiza nosso cérebro na hora de dormir e faz nosso sono ser mais profundo
  • A gente acorda bem melhor quando dorme mais profundamente!
  • Nós só somos um fracasso se repetirmos para nosso cérebro que somos (e ele escuta e age de acordo)
  • Não devemos subestimar o poder que um ambiente organizado exerce sobre a nossa produtividade (rs)
  • Pentear o pêlo do cachorro acalma ele e a gente.
  • Fazer algo pelos outros não faz bem só pra eles, faz principalmente pra gente.
  • Acupuntura sem agulhas acalma cachorros medrosos.
  • Nosso cabelo fica mais limpo com shampoo sólido  e o meio ambiente agradece.
  • Existem blogs deliciosos, séries incríveis, livros maneiríssimos e agora, pessoas com listas de leitura ainda maiores.

120 dias diferentes

As manhãs passaram a ficar mais prazerosas quando eu determinei um ritual matutino que se consolidou depois da repetição dos hábitos: exercícios, limpar a área dos cachorros, tomar um bom café da manhã, fazer uma leitura ou escutar um podcast e, finalmente, me sentar pra trabalhar com muito mais disposição.

As noites ficaram mais tranquilas com uma xícara de chá e um livro, depois de escrever por alguns minutos (os gringos chamam isso de journaling) e quando eu deixei o celular do outro lado do quarto (não, meditação eu ainda não consegui fazer).

Nós contribuimos mais com o mundo, quando estamos bem. Por isso é tão importante estar de boa. Ninguém consegue ajudar alguém estando incompleto ou ´quebrado´por dentro.

Conclusão: 

São pelo menos 120 dias dentro de casa, tendo saído só um dia para pegar um combo de festa junina na frente da igreja. Mas são 120 dias dando atenção delicada à minha mente, à minha criatividade, à minha intuição, às minhas competências, ao meu corpo, às pessoas e à minha família. 120 dias inevitavelmente valorizando as coisas pequenas: de uma gotinha de água potável, à patinha do meu cachorro, ao sol que bate na janela, ao cheiro do café do meu pai, às flores do quintal do vizinho, ao rapaz da casa da frente tocando trompete, à uma música nova salva na playlist, ao encontro dos meus colegas de trabalho em um happy hour que foi o mais gostoso da vida, à necessidade que se sente de sair e ajudar e a constatação de que sim, eu sou privilegiada – mesmo nos meus piores dias, serei privilegiada em poder estar contando tudo isso pra vocês, em casa, trabalhando, protegida. 120 dias em quarentena reforçaram minha certeza de que as pessoas são o mais importante e dependemos uns dos outros, reforçaram minha gratidão e a certeza de que ´tudo é vaidade e vento que passa´ (Eclesiastes 1, 5). 120 dias do lado de cá da janela, mudou meu jeito de olhar. O mundo não vai estar do mesmo jeito, quando a gente sair.

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