Criatividade

O processo criativo no teatro e na dança

Post image: Ahmad Odeh

Como nós tínhamos explicado no artigo anterior, iniciamos uma série de entrevistas e bate-papos para investigar o modo como artistas mulheres de todas as áreas exploram seu poder criativo e de que modo constroem seu processo criativo.

O objetivo desta série é simples: inspirar você! Nos inspirar! Nos incentivar, como mulheres, como irmãs, como parceiras de jornada. E caso você ache que este assunto só diga respeito à artistas, já vamos avisando: a criatividade é uma característica inata ao ser humano e, para que nós saibamos reinventar nossa vida e a nós mesmas, precisamos lançar mão do nosso potencial criativo. Nosso objetivo é desmistificar a criatividade e tirar de cima dela esta enganosa sensação de que pertence aos deuses. Todas nós podemos viver melhor e com mais prazer, se soubermos acender nosso potencial.

Desta vez, nós conversamos com a Ariana Slivah, bailarina e atriz (no final da entrevista tem a sua bio completa!). Sua entrevista nos impactou profundamente, no sentido de entender como todas as nossas criações são um processo que abarca as referências mais importantes que estão ao nosso redor (como o espectador) e que nos transformam profundamente. Por isso acreditamos tanto na arte e em qualquer processo criativo como um fator decisivo de transformação não apenas de um indivíduo, mas de vários: uma sociedade inteira.

(…) Eles estão no jogo mais do que podem supor. Sem o espectador, seu interesse, sua escuta aberta, a arte simplesmente não acontece. Existe toda uma alquimia nesse processo de troca que nem pode ser explicada só pela lógica. Por isso a arte é tão sagrada. E ela é nossa! É da natureza humana. É de todos nós.

LBB –  Você acha que para os atores e bailarinos os processos criativos acabam sendo mais intuitivos e construídos gradativamente e você se identifica com este processo feito desta forma, ou as metodologias são importantes?
Ariana – Cada artista tem um processo, uma forma de trabalhar que funcione melhor para si. Eu sou muito intuitiva, portanto meus processos costumam ser bem intuitivos também. Porém, na minha opinião e processo, as metodologias servem como guia, pois um excesso de intuição e criatividade mal direcionadas podem, ao invés de ajudar, atrapalhar bastante, fazendo com que o artista se perca no meio do caminho.

LBB – Quem te influencia? (Ou te inspira?)
Ariana – A natureza e as pessoas (não somente artistas) mais ligadas a ela. Costumo me interessar por tudo e todos que se transformam de maneira orgânica. Fazer uma comida, pra mim, pode ser considerado uma arte. Depende do coração do cozinheiro e se quem comer vai ter a sensibilidade de se conectar com o que está por trás daquele prato. Entende? (LBB: sim ♥)

LBB – Você acha que quando o trabalho se aproxima (pouco ou muito) de alguma referência pessoal da sua vida, torna o processo mais difícil? Como isso funciona pra você?
Ariana – Sim. O difícil é saber separar o que é profissional do que é pessoal. Mas, no meu caso, as referências pessoais sempre me ajudaram e enriqueceram demais meu trabalho. Importante lembrar que a técnica é de grande auxílio num caso desse.

LBB –  Como você avalia que este tempo de contingência impactou o seu trabalho, tanto em termos de processo criativo quanto em termos da apresentação final do trabalho? A possibilidade de fazer apresentações virtuais (e as próprias mídias digitais) são facilitadores?
Ariana – Sinceramente eu ainda estou tentando entender tudo isso. O que posso dizer é que no caso do Teatro ou de qualquer arte produzida ao vivo, não é a mesma coisa, nunca será. Mas sem dúvida que a tecnologia está ajudando no sentido de contato com colegas, conversas, leituras, pesquisas e gerando uma ampla reflexão do papel e da produção da arte neste momento. Muita coisa que parecia importante parece ter se tornado fútil num cenário como esse. Não sei…

Eu sou muito intuitiva, portanto meus processos costumam ser bem intuitivos também. Porém, na minha opinião e processo, as metodologias servem como guia, pois um excesso de intuição e criatividade mal direcionadas podem, ao invés de ajudar, atrapalhar bastante, fazendo com que o artista se perca no meio do caminho.

LBB –  Como é seu processo criativo? De onde saem as ideias, que ferramentas usa, que horários prefere trabalhar, enfim… qualquer coisa que queira dizer sobre isso!
Ariana – Prefiro as manhãs e absolutamente sozinha, sem celular, sem ninguém chamando. Porém, quando estou em processo (no meu caso, não estou dizendo que é certo!) eu fico o tempo inteiro em “estado de transformação”, observando pessoas nas ruas, lendo, passando texto no banho, cozinhando. Vira obsessão mesmo. Rsrs… Minha principal ferramenta é meu corpo, literalmente. Exercícios físicos, sensações, dança, contato com a natureza, alimentação… ele é o meu canal de conexão.

LBB – Que artista você chamaria pra tomar um café e por quê?
Ariana – Eu tomei um café com o Paulo Autran! Eu tomaria café com qualquer artista que ama, respeita e faz arte pela arte, para se expressar, e não para julgar os outros ou se aparecer, por vaidade.

(Pausa para nós imaginarmos como seria tomar um cafézinho com o Paulo Autran ♥).

LBB – Que Personagem gostaria de interpretar e por quê?
Ariana – Ana Karenina, Tolstói. Não sei, talvez me identifique com ela.

LBB – Poderia citar um trabalho, seja em teatro ou dança, que tenha te marcado muito?
Ariana – O Cais, da Velha Cia de Teatro. Se não viu, pelo amor de Deus, veja. Krum, e o trabalho do Ohad Naharin, Gaga, me impressionam e me inspiram (ele é uma grande inspiração e tomaria muitos cafés com ele! Haha)

LBB – De que maneira os processos de trabalho te transformam? (pergunta difícil rs)
Ariana – Mudam tudo. É como se eu acrescentasse mais uma versão minha na minha personalidade. Eu me transformo sim, nunca saio ilesa.

LBB – O que está lendo?
Ariana – Mulheres que correm com lobos, Clarissa Pinkola Estés.

LBB – Já teve bloqueio criativo? Como enfrentou?
Ariana – Já tive, opa! Eu deixei passar. Tento não sofrer e pilhar se não travo mais. Se for trabalho que não posso esperar, me agarro em técnicas e vida que segue. Se estamos vivendo, a criatividade volta.

LBB – Como você acha que os locais de apresentação cênica interferem no trabalho (no processo criativo, na sua jornada, etc)?
Ariana – Antes influenciavam muito. Eu queria a luz perfeita, palco, atmosfera perfeita para entrar num estado de suspensão e me “distanciar” do público e da realidade. Algo mudou. Agora só preciso de um público disposto a jogar comigo. Pra mim, qualquer lugar é lugar. Ainda estou me entendendo nisso.

LBB – Você acha importante que o artista incorpore em seus trabalhos (seja quais forem eles) assuntos importantes e atuais, que seja um trabalho politizado? Ou a forma de entretenimento, reflexão, etc, também é válida?
Ariana – Acho o entretenimento válido sim, respeito muito. Contanto que não desrespeite ninguém, acho ótimo. Porém, me identifico mais com trabalhos que abordem temas das experiências humanas mais, digamos, transformadoras. Agora, às vezes um entretenimento mais leve, sem compromisso, só para arejar, pode dar uma “aliviada” nas ideias.

LBB – Quais sao os desafios que você identifica que atrapalham ou dificultam seu trabalho?
Ariana – Remuneração. Muito difícil sobreviver, quanto mais viver disso.

LBB – Qual a importância do espectador em seus processos, considerando temporadas médias ou longas? De que maneira ele interfere em seu trabalho?
Ariana – Eles são tudo. Eles estão no jogo mais do que podem supor. Sem o espectador, seu interesse, sua escuta aberta, a arte simplesmente não acontece. Existe toda uma alquimia nesse processo de troca que nem pode ser explicada só pela lógica. Por isso a arte é tão sagrada. E ela é nossa! É da natureza humana. É de todos nós.

Eu me transformo sim, nunca saio ilesa.

Ariana Slivah é atriz formada em Artes Cênicas pela Universidade São Judas Tadeu. De 2000 a 2010 trabalhou como dançarina, atriz e pesquisadora de arte e cultura do Oriente Médio. Integrou o elenco da “Cia Cultural de Danças do Oriente Médio”, dirigida pela Diretora e bailarina Fátima Fontes. Em 2002 viajou ao Egito para aprofundar seus conhecimentos em cultura oriental árabe. Ministrou aulas e workshops de dança árabe e expressão corporal por todo Brasil, compondo intuitiva e naturalmente um trabalho somático que unia dança, voz, teatro e movimentos do cotidiano. Em 2015 integra o elenco de “A Máquina Tchekhov”, de Matei Visniec, dirigido por Clara Carvalho e Denise Weinberg, indicado a vários prêmios e vencedor do Prêmio Shell de iluminação. Foi fundadora, atriz e diretora do “Miscelânea – Artes Dramáticas e Visuais”, na cidade de Ribeirão Pires, onde deu início a sua pesquisa “CorpoVoz &Movimento”, na área da educação somática. Foi aluna de Ronnie Kneblewski, um dos maiores nomes do Teatro Musical no Brasil, e Isabel Setti, atriz e diretora teatral da Escola de Artes Dramáticas da USP. Também fez parte do elenco de Tio Ivan, adaptação da obra “O Tio Vânia”, de Anton Tchekhov, da diretora Adriana Câmera e vencedor do Prêmio Aplauso Brasil 2019 de Melhor Espetáculo de Grupo, pelo Júri Popular. Atualmente faz parte do elenco de Revide, peça de Teatro Verbatim dirigida por Herbert Bianchi, e dá aulas de educação somática nas cidades de São Paulo e Ubatuba, onde reside atualmente.

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