Casa

Morando em espaços pequenos: um pequeno notável em Paris

A terra é a minha pátria, o céu é o meu teto e a liberdade é a minha religião. 

ditado cigano

Estamos pedindo emprestado este dizer dos povos ciganos para falar deste casal, da vida deles e do seu jeito de viver. No meio da entrevista eles citaram o termo “vida cigana” – estavam falando sobre terem morado em vários lugares, mas, sem querer, acabaram referenciando a si mesmos e à natureza das suas almas: A Bel e o Anthony,  34 anos, são duas pessoas muito diferentes no dia-a-dia. Ela é metódica e disciplinada, gosta de regularidade e de ter tudo sob controle, em seus hábitos e em sua vida. Já ele, se dá bem com o improviso e com o acaso. Quando viajam, ela começa a esquematizar a viagem e planejar as malas com um mês de antecedência, enquanto ele deixa pra fazer na noite anterior – e tudo certo!

Apesar das diferenças de personalidade, essencialmente são duas pessoas iguais no amor pela liberdade. Pela liberdade e através dela, foi que os planetas se alinharam e seus olhares se cruzaram numa tarde e num pôr de sol lindíssimo no Chile, quando as esquinas das suas vidas viraram uma espécie de Ipiranga com a São João. Ele, um francês envolvido com turismo, que falava português melhor que muitos de nossos nativos brasileiros e dava um rolê pelo mundo, sem destino e sem motivos. Ela, paulistana passando o Reveillon com os amigos: Um brinde ao amor e aos começos!

Foram vários os seus caminhos. Moraram 2 anos no Rio de Janeiro, ela envolvida com Cultura, ele envolvido com Turismo. Vieram as Olimpíadas. Os bloquinhos. Os carnavais. Moraram em São Paulo – veio a Copa – e ficaram no Brasil até terem decidido se mudar para Paris: “Alguém, nessa história, sempre vai ter que enfrentar a saudade”, disse Anthony, nesta época. Seja como for, lá ou aqui, seus caminhos convergiram e foram sempre muito marcados pela alegria, jovialidade e liberdade. Alguns objetos que decoram as paredes de seu atual apartamento, de 32m², no centro de Paris, são signos que os remetem à cada uma destas histórias.

Em quarentena e em casa

4 anos após terem se mudado e transferido a vida corrida de endereço, que ironia: foi apenas durante a quarentena que puderam realmente interagir com o lugar onde moram: as paredes que antes eram brancas e deram lugar à diversidade e dinamismo de suas histórias; as plantas, que dão vida ao pequeno local; as cores, tão terapêuticas e sempre tão presentes. “Sempre quis ficar em casa e nunca pude, porque trabalho desde a primeira semana que cheguei no país. Ficar em casa, durante a quarentena, foi a única possibilidade que eu tive em 4 anos de verdadeiramente curtir o meu espaço”, disse Isabel.

A quarentena propiciou este tempo para olharem uma segunda vez para sua própria casa e para que construíssem esta relação com um lugar pensado e montado com tanto carinho e significado: Mexer com plantas, tomar mais cuidado com as regas, serem mais atenciosos, cuidarem das coisas, costurar o que estava esperando ser costurado, pregar um quadro que ganharam de uma amiga (da A Calmaria), rever o que não precisamos mais, cozinhar, testar, experimentar, meditar… enquanto do lado de fora o mundo mergulha no caos, do lado de dentro o casal encontra a paz e a base que precisam para manterem a serenidade. A quarentena mudou a relação que tinham com a própria casa.

Morando em espaços pequenos

Muita gente acha impossível morar em um apartamento de 32m². As justificativas estão na ponta da língua: não haver espaço para as coisas. Não ser possível receber os amigos. Duas desculpas desmistificadas por Isabel e Anthony, por serem quem são e como são: dão valor às coisas que contam histórias e das quais, por mais minimalistas que sejam e são, não abrirão mão. Têm muitos amigos, de várias tribos e adoram recebê-los (e até hospedá-los) em casa. Entrevistando Isabel, nos demos conta de como nós sempre só pensamos nos empecilhos e não no lado positivo. Enxergamos o copo sempre meio vazio. Pra tentar mudar isso, nós mudamos a pergunta:

Qual é o lado bom, de se morar em apartamento pequeno?

Morar em um apartamento pequeno torna sua vida mais fácil e mais prática: “é mais fácil de viver, de limpar. A manutenção é mais simples, mais barata. Em uma hora você consegue limpar tudo”.

“Morando em apartamentos pequenos, percebi como se compra coisas com tanta facilidade. Em nosso atual momento, compro pouquíssimas coisas. Visto o que eu tenho. Tento manter um estilo de vida minimalista: quero ter uma estrutura de vida leve, sem ter que carregar tantas coisas cada vez que tiver que mudar de endereço”.

Minimalismo

Quando você não mora em um espaço grande, aprende a adotar um estilo de vida mais minimalista. Você se vê obrigada a desapegar do que não usa, do que não precisa, de exageros e acúmulos desnecessários. Você não tem espaço pra isso! O que compra, usa. O que guarda, usa. Tudo o que tem em casa, tem uma utilidade. Nada ocupa espaços à toa. Não precisamos deixar nada parado que não vá nos fazer algum sentido.

Minimalism, um documentário do Netflix sobre o tema, indica que o ser humano não precisa, de fato, de muito espaço para viver. Em um mundo cada vez mais populoso e sem que as desigualdades sociais sejam mitigadas, morar em grandes espaços se torna financeiramente inviável e pouco recomendado.  Se formos responder com sinceridade em termos de primeira necessidade, nós precisamos de um espaço para comer e dormir: na prática, isso se traduz em poucos cômodos.

Morar em espaços pequenos e terem se mudado muitas vezes (foi neste momento da entrevista que eles falaram em “vida cigana”), fez com que Isabel e Anthony percebessem como ao longo da  vida o ser humano acumula coisas sem se dar conta. Quando se mudaram de São Paulo para Paris, venderam 90% do que tinham, tendo conservado apenas pequenos objetos. “Percebi como se compra coisas com tanta facilidade. Em nosso atual momento, compro pouquíssimas coisas. Visto o que eu tenho. Tento manter um estilo de vida minimalista, por causa da nossa vida cigana: quero ter uma estrutura de vida leve, sem ter que carregar tantas coisas cada vez que tiver que mudar de endereço. Quero realmente consumir apenas aquilo que preciso”.

A decoração

Não dá pra viajar muito, diz ela. Na hora de pensar a decoração de um espaço pequeno, você precisa contrabalancear a vida prática do dia-a-dia e a beleza da decoração que você desejaria, se tivesse espaço. O casal já havia morado em um espaço pronto e inteiramente montado, anteriormente. “É como morar em um Air BNB: Morar com a impressão de que você não está na sua casa”.

Ao se mudarem para o apartamento atual, absolutamente vazio, era necessário pensar além da decoração: itens de primeira necessidade, como uma mesa (o que faltava no apartamento anterior),  um sofá… coisas necessárias para o uso cotidiano, mas ao mesmo tempo sem excessos, que dessem a impressão de se coisas acumuladas ou de um espaço ainda menor. Morar em um espaço pequeno te faz pensar muito bem antes de comprar cada coisa e cada item adquirido tem realmente uma função importante, como a mesa rústica que ambos compraram e pensaram juntos: “Em nosso apartamento anterior não tínhamos uma mesa. Era difícil fazer uma refeição. Eu estava estudando, fazendo meu Master, não tinha onde apoiar o computador”, diz Isabel.

Por outro lado, enquanto se tenta estruturar o espaço com as coisas de primeira necessidade, há outras que também têm um significado importante, embora não sejam cruciais. “Eu queria um sofá amarelo, porque eu gosto desta cor e acredito no poder da cromoterapia em nossa vida. Aqui na Europa temos muitos dias frios, por isso eu queria uma cor quente em casa, para a manutenção do bom humor e do bem estar. Mas como o apartamento é pequeno e não seria tão prático ter um sofá amarelo, apostamos em uma poltrona, que é meu grande xodó.”

Objetos que contam histórias

Coadjuvantes de muita importância que foram ganhando espaço em suas vidas e fazendo cada vez mais sentido, são as plantas. Ter o seu próprio espaço te coloca em busca de coisas que façam você se sentir bem, como as plantas e os benefícios e sensação de bem estar que elas trazem. No apartamento de Isabel e Anthony tudo foi pensado e conectado com a personalidade e a história do casal.

Como isso funciona na prática, na hora de decorar? Pense em objetos que contam sua história, como o chapéu preso na parede, que Anthony usava para tocar Maracatu no Rio de Janeiro, ou o quadro “Mais Amor”, que distribuíam na rua enquanto eram voluntários de uma ONG em São Paulo, ou o quadro atrás do sofá – o mapa da Antártida – onde Anthony fez uma expedição em um navio, durante um mês inteiro. “Tudo o que temos, conta uma história da gente e todas as decisões que tomamos sobre a decoração da nossa casa, são decisões compartilhadas”. Muitas vezes subestimamos o poder das histórias que objetos ao nosso redor contam sobre nossas vidas. Eles podem não fazer sentido para as outras pessoas. Eles não precisam fazer sentido para as outras pessoas. O que importa, mesmo, é que façam sentido pra você e que conduzam sua mente à memória afetiva, cada vez que seus olhos os encontram pela casa.

Morando em Paris: histórias malucas 

Enquanto procurava o apartamento ideal para morarem, Isabel e Anthony colecionaram sustos, diante de histórias bizarras. Quando se fala em morar em outro país que não é o seu (no caso dela), às vezes o que é bizarro pra você será normal para os outros: “Em Paris, a rotatividade e a procura por imóveis é altíssima, o que leva os proprietários a não se desgastarem demais e muito menos financeiramente com a manutenção dos apartamentos. Muitas vezes me pareceu que a busca por um lugar limpo era mania de brasileira” – disse Isabel. Não é exagero. Ao procurarem por um espaço, encontraram de vaso sanitário no meio da sala, “paredes com champignons”, teto escuro, prédios sem elevador à apartamentos com cheiros: xixi de gato. “Quem não tem bichos de estimação tem o olfato muito sensível para os cheiros que eles deixam. Tive que aguentar cheiro de xixi de gato por um bom tempo, até ter sumido depois de muita higienização”. – contou ela.

O cantinho preferido da casa

Já que estamos falando em ressignificar a nossa relação com o lugar onde moramos – e isso é uma coisa que você também pode fazer, especialmente durante a quarentena – nós perguntamos ao casal qual é a parte da casa que mais gostam e por quê. A resposta é uma demonstração de como tudo aquilo sobre o qual debruçamos nossa estima normalmente guarda um motivo afetivo, nas entrelinhas. “Anthony gosta muito da varanda. Nem todos têm o privilégio de morar em um apartamento com varanda, em Paris. Na verdade, poucas pessoas. Nós somos gratos por isso e agradecemos à Deus todos os dias! É o local da casa onde ele fica mais, gosta de sentar, descansar, ler um livro”.

“Já eu, gosto muito da vista. Olho pra fora e vejo o Sacre Coeur, um cartão postal de Paris, enquanto cozinho ou molho as minhas plantas” – diz Bel.

Se os ciganos chamam a Terra como sua casa, eles certamente sabem (e tudo indica que sabem há um bom tempo) que precisamos, de fato, de pouco para viver; e que a felicidade se concentra nas pequenas coisas: as não colecionáveis, nem palpáveis – e que geralmente carregamos em nossas memórias, pra sempre. Eles têm razão.

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