Criatividade

O processo criativo na literatura

“(…)a criação não se dá sozinha; há um interlocutor que construirá essa equação, esse diálogo, contigo.”

Mirelli Fernandes Rosa

Atendendo aos interesses das nossas leitoras, que são mulheres empreendedoras, criativas, cheias de energia e de ideias, verdadeiras fadas criadoras que tiram o mundo de sua zona de conforto e botam as coisas pra andar, nós criamos uma linha de conteúdo no LBB especialmente voltado para a criatividade. O que é que fomenta a sua criatividade? Onde você busca inspiração? Como esse processo acontece na sua vida? Pra saber mais informações sobre a série e ler as outras entrevistas, clique aqui.

Em nosso primeiro bate-papo entrevistamos Mirelli Fernandes Rosa, autora do livro infanto-juvenil Ascendam seus Corações, entre outros – e fundadora do Projeto Nave Social.

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LBB –  Você acha que para umx escritorx, o processo criativo em que se desenrola a escrita e a obra é mais intuitivo, ou sistemático (dentro de alguma metodologia)? Acha que existe uma tendência? Como isso funciona pra você?
Mirelli Acho o processo criativo bem individual. Sempre achei o meu mais intuitivo — honestamente, ainda acho —, mas, recentemente, experimentei a “Jornada do Herói”, de Joseph Campbell, para construir uma narrativa e, olha, me surpreendi. Não com a narrativa em si, que ainda desenvolvi muito pouco, mas com a questão da estruturação, do processo cíclico. Recomendo! Sou uma pessoa bem organizada com compromissos e com meu entorno, e me incomoda bastante quando não consigo transpor essa característica ao campo das ideias. Não sou atrelada à tendência, mas à experimentação. O que flui, funciona. Há um ensaio do Duchamp, “O ato criador”, que é uma reflexão acerca da arte contemporânea, mas que, pra mim, se aplica a todas elas: ele fala do coeficiente artístico; uma relação aritmética com o espectador (aqui, leitor): tudo aquilo que não foi dito, apesar da intenção, e tudo que foi dito, ainda que não-intencionalmente. Resumindo, a criação não se dá sozinha; há um interlocutor que construirá essa equação, esse diálogo, contigo.

LBB – Quem te influencia? (Ou te inspira?)
Mirelli – Sou uma pessoa demasiadamente sensorial. Tenho a impressão de que absolutamente qualquer coisa é pauta para uma narrativa. Tudo depende da forma como essa coisa nos atravessa. Mas, de tudo que há, vejo a poesia como o condão: ela pode parir o mundo. O amor e a dor. Pela simplicidade assertiva e destreza na licença poética, Manoel de Barros é minha grande referência.

LBB –  Você acha que quando a obra se aproxima (pouco ou muito) de alguma referência pessoal da vida do autor, torna o processo e o trabalho mais difícil? Como isso funciona pra você?
Mirelli – Não tenho dúvidas. Porém, da mesma forma, considero o processo curativo e libertador. Recentemente, fiz do luto pela perda repentina da minha mãe, cartas. E revisá-las doeu muito mais que a escrita, em si. A compilação veio como uma avalanche, enquanto as cartas — quando foram escritas — pingavam, apenas. Mas o distanciamento do olhar é um exercício necessário; na escrita, na vida, na morte.

LBB – Você acha que nos dias de hoje os novos autores têm mais chances e mais facilidades para publicarem suas obras? Acha que houve uma desvalorização do mercado editorial em função das mídias digitais?
Mirelli – Acredito que há mais facilidades, sim, mas no formato digital. Há várias plataformas que possibilitam essa via de publicação; comunidades virtuais que promovem a interação entre escritores, leitores, além da comercialização e a perspectiva de tornar-se visível no meio. Os crowdfundings, por exemplo, viabilizaram a feitura de muitas obras de interesse coletivo, e acho saídas sensacionais! Mas também vejo uma desvalorização do mercado físico editorial. A leitura longa e pacienciosa talvez já não seja um hábito tão presente; acredito que a urgência e o senso de brevidade textual das mídias sociais sequestraram boa parte do foco e da fruição do leitor.

o distanciamento do olhar é um exercício necessário; na escrita, na vida, na morte.

LBB –  Como é seu processo criativo? De onde saem as ideias, que ferramentas usa, que horários escreve, enfim… qualquer coisa que queira dizer sobre isso!
Mirelli – Como eu disse, não tenho uma metodologia. Às vezes, uma ideia brota sem que eu tenha qualquer ferramenta em mãos. Então, construo mentalmente uma frase, com palavras-chave, ou anoto no celular, se estiver com ele — e oro para lembrar do que pretendia, depois (hahaha). Gosto particularmente dos textos que deslizam, que vêm sem esforços. Não por preguiça, mas porque penso que eles já estavam calcados, em algum lugar dentro da gente. É uma vazão boa de sentir. Não tenho horários, mas o silêncio me apraz, tipo quando a cidade dorme. Mas, olha, abraçar o caos também pode produzir coisas incríveis.

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LBB – Que escritora você chamaria pra tomar um café e por quê? (acho que também sei a resposta)
Mirelli – Hoje, a Alice Ruiz. Curitibana — natural da cidade do meu coração, dos meus filhos e de muitas cafeterias, onde vivi durante 4 anos bem felizes —, poeta, haicaista e ideologicamente maravilhosa. Foi casada com Paulo Leminski, por quem tenho profundo apreço, também. Seria maravilhoso papear sobre a trajetória dessa mulher.

LBB –  Personagem feminina inesquecível?
Mirelli – Na literatura, Offred, de “O Conto da Aia”Margaret Atwood é excepcional na narrativa do universo (nem tão) distópico. Na vida real, minha mãe.

LBB – Livro que foi melhor que o filme?
Mirelli – A literatura e o cinema são duas vertentes das quais eu gosto muito. Sobre o livro ser melhor que o filme, pra mim, raramente é o oposto; não por pedantismo, nem nada. É que o leitor não é meramente um espectador. Ele participa ativamente da construção cênica, contextual, sonora, figurinística, enfim, tudo está dentro dele. São as referências e o repertório dele, plasmados em alguma esfera da sua imaginação. É um processo autêntico, ativo. Não consigo eleger um, mas, se me perguntar o contrário, bem fácil: “O Escafandro e a Borboleta”, dirigido por Julian Schnabel. O filme é um primor, especialmente pela câmera subjetiva, que é o ponto de vista ótico de Bauby, o protagonista — e que nos lança numa situação empática (e reflexiva) acerca da situação dramática que ele vive.

LBB – Livro que você filmaria no cinema? Quem chamaria pra dirigir o filme?
Mirelli – Sei que já há, mas queria “As Meninas”, de Lygia Fagundes Telles, dirigido por Anna Muylaert (só a mulherada). Pode mais um? “O Dia do Curinga”, de Jostein Gaarder, dirigido por Tim Burton. Pensa!

LBB – O que está lendo?
Mirelli – Notícias sobre o Covid-19. A todo o instante.

LBB –  Já teve bloqueio criativo? Como enfrentou?
Mirelli – Infinitos. Tantos que nem sei enumerar. Procuro não enfrentar, mas me abster. De repente, flui. Ou não — e eu aborto a ideia (nem todas precisam ser).

LBB – Melhor bebida pra acompanhar um trabalho?
Mirelli – Um chá quente. Sem nada ou com mel.

LBB – Você acha importante que a escritora/o escritor incorpore em seus trabalhos assuntos importantes e atuais, que seja um trabalho politizado? Acha que essa tendência vai ficar mais frequente, com os desafios atuais que a gente vive? ou seja, a literatura seria uma ferramenta poderosa de discussão, debates? Ou a forma de entretenimento, reflexão, etc, também é válida? (Será que tudo depende do momento e da inspiração do autor?)
Mirelli – Eu não consigo dissociar! Meu trabalho é essencialmente politizado. De uma forma ou de outra, para crianças ou para adultos, sempre trago essa carga. A escrita deve ser uma ferramenta de elucidação; temos um compromisso muito sério com a sociedade. Citando Rumi, um amor literário antigo, “as trevas são tua vela”; o ato de escrever é lançar luz no caos. Óbvio que o entretenimento é válido, mas nele também há entrelinhas. E entrelinhas podem ser preenchidas. Nas minhas pesquisas como arte-educadora, o meu viés é majoritariamente freiriano. Isso não agrada uma parcela considerável de pessoas que sequer conhece a obra de Paulo Freire, mas devo ser honesta com as virtudes humanitárias que residem em mim.

LBB – Quais sao os desafios que você identifica que atrapalham ou dificultam seu trabalho?
Mirelli – Não poder viver unicamente disso. Começar o dia sem café. Desorganização. Procrastinação. A desesperança política. Home office e gestão da rotina.

LBB – Existe algum assunto sobre o qual você teria algum bloqueio pra escrever?
Mirelli – Antigamente, quando eu tinha receio da receptividade acerca das minhas palavras/vivências, sim. Hoje, não mais. E é essa a grande prenda da maturidade: pode ser que doa, pode ser que sangre, mas ali está você, inteiro; é a sua verdade. A renúncia puramente travestida de agrado, é uma morte lenta. Vivamos!

abraçar o caos também pode produzir coisas incríveis.

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Mirelli Fernandes Rosa é paulistana, especialista em Linguagens da Arte e em Artes Visuais, Intermeios e Educação. Ensaia seu minimalismo inato nos poemas, e aventura-se pela escrita criativa. É mãe, dona de uma inquietude andarilha e pesquisadora da NAVE. Ativista incansável por uma sociedade mais humana e igualitária, teceu “A(s)cendam seus corações” como uma carta-manifesto à infância que pulsa no entorno, e carece de afeto. Na obra, publicada pela Flamingo Edições, editora especializada em literatura infantojuvenil de autores luso-brasileiros contemporâneos, há um pouco de aldravias – poemas constituídos por seis versos univocabulares –, muita ludicidade, e um mundo imagético que abarca uma súplica. Em 2015, participou da obra “O Livro III das Aldravias”, lançado pela editora Aldravas Letras e Artes. É uma das escritoras convidadas para a Antologia de Poesia Brasileira Contemporânea vol. IV, “Além da Terra, Além do Céu” (2019), obra que reúne cerca de 1.200 poemas em língua portuguesa de autores de todo o Brasil, e para a Coletânea de Autoras Brasileiras Contemporâneas, “Registros Femininos” (2020), ambos publicados pela Chiado Books.

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