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Como lidar com a solidão?

Quantas bobagens você já fez na vida, que tenham sido frutos de não saber lidar com a solidão e com a carência? Eu já fiz algumas!

  • Me envolver com gente errada;
  • Ficar com um cara por quem eu não sentia nada (ou não o mesmo que ele);
  • Recorrer à ex-namorado e uma relação que eu sabia que não ia dar em nada.

Isso pra falar de relacionamentos amorosos. Mas estas bobagens podem alcançar âmbitos e esferas muito maiores, mais graves. E tudo porque a gente não consegue, de modo geral, lidar com a solidão.

Relacionamentos infelizes e forçosos são nutridos, porque as pessoas têm medo de romper um relacionamento e ficarem solitárias.

Em uma pesquisa realizada pela Pfizer Brasil, onde 989 pessoas com idades entre 18 e 61 anos responderam à diversas perguntas relacionadas aos maiores temores da idade avançada, o medo de ficar sozinho é um dos maiores. Ao todo, 57% dos entrevistados concordaram que a solidão está entre os principais medos do avanço da idade. Aqui, os jovens também parecem temer mais do que os mais velhos neste quesito: 67% dos entrevistados estão na faixa dos 18 a 25 anos, ante 47% dos que têm mais de 50 anos. O trabalho faz parte da campanha “Envelhecer Sem Vergonha” e tem o objetivo de entender, de forma bem-humorada, como o brasileiro encara o envelhecimento para que as pessoas possam refletir sobre os mitos da longevidade.

No começo do mês de abril deste ano, a GNT fez um documentário sobre como a solidão afeta a vida das pessoas em diferentes faixas etárias, chamado de “A Solidão de uma era”.

Um artigo do Pragmatismo Político relaciona à sociedade do consumo e a cultura do individualismo ao fato de as pessoas estarem cada vez mais afastadas uma das outras – um sistema claramente denunciado por uma época repleta de doenças psíquicas:

“Há muitas razões secundárias para esse sofrimento, mas a causa fundamental parece ser a mesma em todos os lugares: os seres humanos, mamíferos ultrassociais cujos cérebros estão conectados para responder uns aos outros, estão sendo separados. Mudanças econômicas e tecnológicas, assim como a ideologia, desempenham o papel principal nessa história. Embora nosso bem-estar esteja indissociavelmente ligado à vida dos outros, onde quer que estejamos dizem-nos que só prosperamos pelo auto-interesse competitivo e extremo individualismo.”

Tentando lidar com esta sensação contínua, nos rendemos ao consumismo desenfreado e à incessantes interações digitais, com um conforto falso e momentâneo de que nossos contatos no Facebook são nossos amigos e nossa interação na rede é a nossa vida social. No entanto, distante das telas, a sensação de solidão é frequente e agravada pelas comparações que fazemos com os outros, através da também falsa ideia que nos chega a respeito da vida alheia por aquilo que vemos na web.

A Solidão da Era das Redes Sociais

Por que em um tempo em que as redes sociais parecem ter aproximado as pessoas e rompido barreiras geográficas, dizemos que a solidão é o mal deste século? Provavelmente porque não nos demos conta do quanto substituímos o contato pessoal, o convívio real com o outro, com a interação ilusória (embora confortável) possibilitada por um tablet, um celular, ou qualquer dispositivo móvel. Não é impressionante quando reparamos em restaurantes pessoas reunidas ao redor de uma mesa, quantas delas estão mexendo no celular? E quanto tempo passam mexendo em seus celulares, ao invés de interagirem com quem está ao seu lado, propiciando uma conexão real?!

Do texto de Marcelo Bernstein, jornalista e psicoterapeuta, extraí uma explicação pra entendermos este fenômeno com o qual muitos de nós tentamos lutar se nos percebemos agindo da mesma forma:

“Na verdade, além do exército de auxiliares domésticos, o arsenal destes pais pós-modernos é completado por um leque de dispositivos eletrônicos que servem como “babás” eletrônicas, smartphones e tablets, tudo isso com uma única finalidade: manter entretidos e quietos (o máximo possível) estes novos integrantes da sociedade da informação do século XXI, onde a realidade é substituída pelo espetáculo e a relação pessoal pela interação homem-máquina.

A cena resultante chega a ser cômica, se não fosse preocupante. As crianças, ao invés de se relacionarem e brincarem umas com as outras, passam a interagir umas com as outras  através de seus tablets e smartphones (dados por pais que não param para avaliar se os filhos já têm idade para serem expostos ao mundo digital desta forma), mandando mensagens (ao invés de conversarem ao vivo e a cores) entre si, jogando online (ao invés de brincarem umas com as outras). Com o adolescentes, a cena não é muito diferente, onde numa mesma mesa pode-se ver a interação sendo feita através dos mesmos smartphones e tablets, com o envio de mensagens de um para o outro (ao invés de tentar simplesmente conversar), ou através das atualizações de suas respectivas atividades no “Face” (diminutivo de Facebook, porque dá muito trabalho falar Facebook, segundo estes adolescentes cuja marca registrada é um imenso e constante cansaço).”

O que este comportamento causa? Além da falta de capacidade de interpretação e formação de um discurso coeso e interligado, dissociação de personalidade, quadros de carência afetiva, comportamentos compulsivos, transtornos de ansiedade e depressão em diversos níveis e um mundo onde as pessoas estão “cada vez mais sozinhas, deprimidas e ansiosas, apesar de acompanhadas”.

Cidades Populosas

É uma tendência que cidades mais populosas abriguem pessoas mais deprimidas e solitárias. Isso acontece por elas, por vezes, não se identificarem com nenhum grupo diante de uma multidão que não conhece. Não se identificarem com a selva de pedra que tem se tornado estas grandes cidades, isolando ainda mais as pessoas. Grandes cidades possuem mais pessoas solitárias, seja porque se mudaram, a trabalho, seja porque em algum momento de suas vidas viram a necessidade de ter seu próprio ambiente, seja porque fizeram parte de uma família que se dissolveu (um fenômeno que no começo do Século XX era mais raro).

Embora a solidão possa ter seu lado positivo, frequentemente sentir-se solitário pode acarretar em sentimentos de abandono, rejeição, depressão, insegurança, ansiedade, falta de esperança, inutilidade, insignificância e ressentimento. Se frequentes, eles podem se tornar debilitantes e bloquear a nossa capacidade de ter um estilo de vida e relacionamentos saudáveis. Somados à baixa autoestima, podem dar início a uma desconexão social.

Dor física x Dor emocional

Há diversos estudos que relacionam a dor física que sentimos, com a dor social. O contato social reduz a dor física.

“Experimentos resumidos no jornal Psicologia & Comportamento do mês passado sugerem que, diante de uma escolha entre dor física ou isolamento, os mamíferos sociais escolherão a primeira. Macacos-prego mantidos sem alimento e contato por 22 horas irão juntar-se a seus companheiros antes de comer. Crianças que experimentam negligência emocional, segundo certas descobertas, sofrem piores consequências de saúde mental do que crianças que sofreram tanto negligência emocional quanto abuso físico: apesar de hedionda, a violência envolve atenção e contato. A automutilação é frequentemente usada como forma de tentar aliviar sofrimento: outra indicação de que a dor física não é tão ruim quanto a dor emocional. Como o sistema prisional sabe muito bem, uma das formais mais efetivas de tortura é o confinamento em solitária.”

[Pragmatismo Político]

Nós sabemos que no mundo animal, sobrevivem as espécies que andam em grupo. várias espécies conseguem fugir de ataque de leões e leoas famintas, porque andam em grupo. São extintas aquelas que vivem isoladas.

Do lado de cá, para nós seres humanos, o isolamento social está  fortemente associado a depressão, suicídio, ansiedade, insônia, medo e percepção de ameaça. Mais: a solidão causa ou exacerba várias doenças: Demência, pressão sanguínea alta, doenças cardíacas, AVCs, queda de resistência a vírus, até mesmo acidentes são mais comuns entre pessoas cronicamente solitárias. A solidão tem um impacto na saúde física comparável a fumar 15 cigarros por dia: parece aumentar o risco de morte precoce em 26%. Isso se dá, em parte, porque eleva a produção do hormônio do estresse cortisol, que inibe o sistema imunológico.

A diferença entre ser sozinho e ser solitário

Inserindo minha experiência pessoal neste artigo, às vezes me vejo sozinha, mas feliz. Outras vezes, no entanto, sinto-me solitária. Existe uma diferença entre ser sozinho e ser solitário. É possível que vivamos bem, sozinhos, se formos pessoas inclinadas, abertas e dispostas à uma vivência e conexão social real. E soubermos aproveitar nossos momentos solitários para coisas como o autoconhecimento ou mesmo relaxamento. Isto acontece quando passeio com meus dois cachorros pelos arredores, quando coloco uma boa trilha sonora pra tocar e escolho um livro pra ler, quando sinto vontade de fazer um chá para ver um filme, quando não consigo dormir sem dar aos bichinhos um beijo de boa noite. Sou sozinha, mas desfruto bem dos momentos que tenho.

Diferentemente disso, às vezes sinto-me desprovida do convívio social, seja por fatores geográficos (morar longe da família e dos amigos), ou econômicos (não ter dinheiro para ter um carro ou andar de Uber toda hora, carregando meus dois cachorros) ou psicológicos (sentir-me deslocada ou desconectada).

Da mesma forma, é possível que uma pessoa seja rodeada de gente, mas sinta-se solitária e infeliz: provavelmente deslocada e desconectada de quem está à sua volta.

O que fazer?

Ainda não se descobriu uma maneira de remediar este sentimento de solidão que assola as sociedades e várias – várias!!! – faixas etárias. O criador do maldito jogo da Baleia Azul foi um jovem (conforme o que se leu na internet) que na infância sofreu diversos tipos de abuso, tornando-o um jovem totalmente socialmente inapto e incapaz de lidar com seus conflitos e sentimentos. Sua “filosofia” atingiu centenas de jovens e pré-adolescentes que sentem-se da mesma forma.

Há diversas doenças que acometem as pessoas de mais idade. Mas aquela que mais dói e que mais lhes atingem é a dor provocada pela solidão. Pelo descaso, pelo abandono. O mesmo acomete moradores de rua, estigmatizados e abandonados. Milhares e milhares de pessoas passam por eles todos os dias e pouquíssimos lhes tratam com dignidade, ou sequer lhes dirigem o olhar.

Acredito que é um bom começo voltarmos o olhar para nós mesmos e nos questionarmos:

  • quanto tempo eu passo na internet? Por quê?
  • quanto tempo estou dedicando à internet e não estou dedicando à minha família, amigos?

É preciso que nós tenhamos consciência de que passar o dia consultando o smartphone não é saudável. E por mais bem resolvidos que nós nos julguemos ser, a médio e longo prazo as consequências do isolamento social em decorrência da internet e da tecnologia serão desastrosas em nossas vidas. Trarão consequências que vão atingir além de nós, nossa descendência, as pessoas que convivem conosco.

Uma vez que se tenha consciência do quanto é urgente trocarmos o mundo tecnológico e virtual pelo mundo real, e que esta interação sendo real, traz sentimentos, sensações e experiências reais, nós poderemos ao menos evitar que buracos em nós se alastrem. Que esta dor emocional vire uma lacuna de onde não conseguiremos voltar sem ajuda.

No começo deste post eu pretendia fazer uma lista de coisas que se pode fazer para driblar a solidão. Fazer coisas que gostamos, mexer com a terra, cozinhar, passear. Mas no fim das contas, só há uma medida a tomar. Só há um remédio para combater a solidão. Só se sara o sentimento de se sentir sozinho, permitindo-se ao convívio com as outras pessoas.

Partir do zero julgamentos, nem de um lado, nem do outro, ajuda muito: não se sinta inadequado e nem ache que um grupo é inadequado pra você. Cada ser humano é um mundo particular cheio de surpresas que só são descobertas quando nós fazemos o esforço de, gentilmente, se deixarem ser quem são e usufruirmos de maneira sincera e aberta à tudo de bom que esta interação possa oferecer.

Este post foi publicado em: Relacionamentos

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Sou a Melissa, paulistana, administradora por formação - mas é quando estou fotografando e escrevendo que estou sendo quem eu quero ser. ♥

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