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Mãozinhas e pés sujos de terra: uma criança mais feliz, um ser humano melhor.

“Eu respeito aquilo que eu conheço”

Alain Laboille, (autor da foto de destaque usada neste post) um escultor que se tornou também fotógrafo e fotógrafo que se tornou pai, fez uma transição no assunto de suas  fotografias: das esculturas e artes plásticas para o registro da infância dos seus 6 filhos. Este registro, bastante generoso, não interferindo em suas brincadeiras em meio à natureza e ao ambiente em que vivem, quase que observando de fora deste mundo criado por elas. Sem nenhuma censura. Elas são livres para interpretar aquele ambiente ao seu modo, são livres para interagir com ele, para sujar seus pés, suas mãos e seu corpo inteiro de terra, de água, dos elementos da natureza. As fotos, são belíssimas. Belíssimas porque são frutos de uma descoberta e interação genuína, carregadas da vitalidade, do frescor, do encantamento e da pureza próprios dos olhares das crianças. O pai registrar com seu olhar, uma vivência proporcionada pelo olhar das suas crianças.

Fotos: Alain Laboille

Assim como ele, Irmina Walczak e Sávio Freire proporcionaram à sua filha Yasmin uma infância livre de tecnologia e de consumismo, conduzindo-a à vivências mais naturais, proporcionadas pela descoberta, dia após dia, da natureza que a cerca. Esta vivência foi registrada em um diário, que chamam de Retratos pra Yayá. O projeto foi submetido ao crowdfunding pelo Catarse e ultrapassou a meta pretendida! 🙂 O livro pode ser adquirido aqui.

O que ambos os projetos têm em comum fica claro: a sensibilidade dos pais ao entender a importância de se estimular o convívio e interação de seus filhos com a natureza.

Eu, que estou escrevendo este texto, ainda não sou mãe. Mas fico observando amigos, parentes e conhecidos e as experiências com seus filhos com certa tristeza. Confesso que isso tem muito que ver com minha própria natureza. Eu adoro sujar meus pés de terra. Adoro escutar o barulho dos pássaros. Adoro caminhar numa rua de terra, ou descalça sobre a grama. Adoro sentir cheiro de mato. De mato molhado. Da dama da noite. Amo muito escutar barulho de grilos. Amo ver os vagalumes voando à noite. E amo ver a felicidade dos meus cachorros, que são cães de apartamento, quando estão soltos sobre a grama. Então quando vejo crianças que já nascem com um tablet na mão, que aos 5 anos podem nos dar aula de como manusear o video-game, ou como jogar aquele joguinho no celular, sinto tristeza. Porque o mundo dela será aquele, o mundo tecnológico, o mundo dos brinquedos feitos, prontos, que não possibilitam através do processo da própria construção de um brinquedo e de uma brincadeira, a descoberta de um mundo muito mais cheio de possibilidades, da sua própria criatividade, do seu olhar, de si mesmo.

Isso sou eu quem está falando! Mas o Instituto Alana tem mais propriedade pra falar do quanto é importante estimular as crianças ao convívio direto, frequente e intenso com a natureza.

Podemos relatar alguns deles (Fonte: Instituto Alana – leia o aprofundamento de cada tópico, e os estudos nos quais os argumentos são baseados):

  • Estimula os sentidos
  • Aprendizado mais ativo e explorador
  • Favorece os vínculos sociais
  • Inspira momentos de concentração
  • Estimula a atividade física
  • Reduz a violência
  • Desenvolvimento integral da criança;
  • Traz benefícios diretos à saúde;
  • Melhora a nutrição; ;
  • Contribui para a conservação da natureza;
  • Constrói uma sociedade mais saudável;
  • Forja pessoas preparadas para a vida.

Se nós sabemos os benefícios da interação de uma criança desde cedo com a natureza, também podemos ter uma boa idéia de quais seriam as consequências de uma geração inteira criada dentro de casa, na frente da televisão, fechada em condomínios, cercada de muros, e que todo o mundo que conhece vem dos programas que assiste na TV à cabo.

Ainda segundo o Instituto, apesar de vivermos em um país com raízes indígenas, onde a relação com a natureza é intrínseca, há muitos desafios a serem superados, que foram sendo criados pela nossa cultura com o passar dos anos, como os quais:

  • Sair de frente das telas, de uma realidade “bidimensional” para a natureza, um ambiente pluridimensional;
  • Viver em uma cidade cada vez mais tomada pelos carros, que tomam o lugar das praças e ambientes naturais importantíssimos para esta interação, descoberta e convívio social;
  • O estímulo ao consumo, que é feito desde cedo. As crianças se interessam por versões mais recentes dos brinquedos, por coisas prontas, por roupas da moda.  Mas a natureza tem infinitas fontes de descoberta e é tudo de graça. 😉
  • A desculpa de que passear para lugares “relevantes” para os pais, custa caro. Mas na real, para uma criança o que realmente importa é um baldinho, um pouco de terra, um pouco de água – coisas simples e elementos naturais com que possam brincar e explorar;
  • Medo do que é natural – a superproteção dos pais: cuidado com este bicho, não vai pisar ali, etc… só inspiram medo e desconforto nas crianças, transformando a natureza, uma fonte de descobertas, em perigo.
  • A falta de segurança e os nosso infinitos muros e cercados, que nos isolam, nos oprimem e nos desestimulam a querer ultrapassá-los.
  • Selvas de pedra: da mesma maneira que os carros estão tomando as ruas, prédios estão tomando nosso horizonte e praças estão sendo demolidas para darem lugar à empreendimentos;
  • Tempo livre para fazer NADA. E é neste “nada” que a criança vai descobrir uma formiga passando com uma folhinha ou uma joaninha posando na janela do quarto. 🙂

Como começar?

Se você acessar esta O GPS da Natureza (pode fazer o login usando seu Facebook), um infográfico muito legal, onde você pode ter idéias de atividades ao ar livre para seu filho de acordo com a faixa etária, o tempo que ele tem disponível, o ambiente que deseja e o clima.

Eu fiz um teste, escolhendo atividades para crianças de até 6 anos, de 30 minutos, em uma praça em climas frios. Clico em buscar e tenho uma série de brincadeiras próprias para esta faixa etária e que podem ser feitas no friozinho, em qualquer praça.

Pode ainda começar um Grupo Natureza em Família, reunindo familiares ou amigos que queiram possibilitar aos seus filhos esta mesma experiência, de forma conjunta, transformando-a em um convívio social, acessando esta página com um passo-a-passo.

Pode curtir o Programa Criança e Natureza, do Instituto Alana, no Facebook – para ficar por dentro das ações, seminários e atividades futuras.

Pode também procurar o SESC da sua cidade e retirar o guia mensal, onde existem várias oficinas que envolvem crianças e naturezam com estes mesmos objetivos.

A publicidade pode ser muito nociva para as crianças (e estou convencida de que quanto mais tempo conseguirmos deixá-las longe da televisão, dos tablets, dos vídeo-games e dos celulares, mais felizes, mais humanas, mais especiais elas serão), mas não consigo deixar de me lembrar das propagandas dos sabões em pó, que dizem pra gente não ter medo de deixar nossas crianças sujar os pés e as roupas de terra.

Estou convencida de que quanto mais sujo estes pés estiverem, mais feliz esta criança será.

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Sou a Melissa, paulistana, administradora por formação - mas é quando estou fotografando e escrevendo que estou sendo quem eu quero ser. ♥

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