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Eu, mãe

Eu poderia fazer uma lista.

Da primeira, náuseas constantes, pressão alterada, dor pélvica por longos meses, parto prematuro, indução que falhou, cesária que acabou com meu psicológico.

Zero amamentação, apesar dos 30 dias de ordenha, nutricionista para ela, puerpério do “capeta”. Ok, aceita que dói menos, vem a mamadeira. E quando finalmente o peso sobe, vem o vírus.

E é um que mata.

Internação, tubos, dieta zero de novo. Saturação para baixo, UTI e 11 noites saltando a cada “bipe” das máquinas.

Na segunda, ainda no ventre, o despreparo emocional para a surpresa do positivo, as náuseas incapacitantes que logo se transformaram em vômitos diários.

Qualidade de vida: zero.

Mas o tempo passa, sempre passa, e tudo parece que vai entrar nos eixos. Mas aí vem acidente no pé, duas infecções e outras intercorrências. Imunidade deve estar na lua, por aqui passando longe.

Médico do PS até confirma o que eu já pensava e diz que não acha nada saudável estar grávida. É feto sugando nutrientes, forças, energia. Não tem como ser normal, ele disse.

Chega a noite e não, não foi um feriado de passeio na semana passada, de parque ou cinema. Mas estávamos juntos. E ali, largados na cama, nos abraçamos enquanto uma espécie de névoa imaginaria nos envolvia. Conversamos, rimos, contamos histórias, fizemos planos.

Um cheiro doce paira no ar, cheiro de criança feliz entre nós, cheiro de casal que se ama mesmo separado por pernas gordinhas de uma menina que se instala ali no meio. Não é só cama compartilhada, é vida completada.

E me dou conta de que por mais atraente que a liberdade de antes me pareça, eu hoje prefiro esse descontrole, essa loucura de amor sem limite e, contraditoriamente, sereno. Sei que estou perdendo todos os lançamentos interessantes do cinema, jantares românticos à dois, viagens excitantes, leituras importantes.

Ser mãe e gestar para mim têm sido o maior exercício de entrega e doação que já pude imaginar. Você doa seu tempo, suas escolhas, até sua saúde. Mas também repassa suas ideias, ecoa valores, encontra num ser tão pequeno a chance de recomeçar, de oxigenar o mundo e, porque não, a própria vida.

Quando aqueles braços te enrolam num abraço apertado, a dor acaba, o cansaço e falta de tempo parecem banalidades. É reconstrução diária de quem se é e, como já ouvi dizer, é ter o prazer indescritível de acordar e descobrir o Sol ao seu lado. Uma estrela de dedinhos roliços e macios, que entrelaçam meus cabelos e enxugam todas as lágrimas.

Marina Faleiros, jornalista, 33 anos, mãe de uma menina de três anos e grávida de 26 semanas de outra menina.

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