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Você se considera uma pessoa coerente?

Image Source: Craig Dennis

Em tempos em que gozamos de total liberdade de expressão e onde as redes sociais facilitam e disseminam bastante o nosso discurso, não sei se todo mundo tem noção do quanto está exposto, do quanto cada palavra que dizemos está sendo analisada e do quanto nosso discurso fala sobre nós. O que escrevemos e falamos na rede impacta muita gente, muitas vezes muita gente nos observa e não sabemos, muitas vezes nos contradizemos e não sabemos – mas os outros sim, nos avaliam por este discurso e podem nos julgar pelo mesmo motivo. Até aqui, ok. Porque o ser humano pode se contradizer de vez em quando, pode dizer algo (ou escrever) e se arrepender depois, pode dizer uma coisa hoje e se arrepender amanhã, depois deletar (ou não). O problema começa quando a gente escreve/fala uma coisa e faz outra. Porque aí, na rede a gente é uma pessoa e fora dela, offline, somos outra. É o que a incoerência faz com nossa identidade se nós não tivermos controle sobre ela.

Este assunto me incomoda bastante e faço bastante esforço pra não errar nisso,  a coerência. Ser coerente é a relação harmônica entre o que a gente diz, escreve, prega por aí e o que de fato faz, a forma como a gente age. Existem exemplos bobos e existem exemplos fodas. E eu vou falar dos fodas! haha!

Por exemplo: como pode uma pessoa que conhecemos por ser bastante religiosa, agir de forma tão intolerante? Ou tão rígida? Intolerância e rigidez. As religiões não falam sobre caridade, sobre tolerância, sobre mansidão? Eu sou católica, mas poderia estar falando sobre um budista ou um xamã. Qualquer que seja sua crença, não acho que tenha alguma serventia só um discurso bonito no Facebook sem a prática consistente – ou o empenho, que seja – daquilo que se prega. Se Jesus Cristo estivesse reunido em uma roda com seus 12 apóstolos, cada um com uma visão política diferente, será que ele expulsaria do grupo os que se posicionassem diferentemente dele? Eu acredito que não. Que de uma forma muito inteligente e genial ele teria assunto com estes caras por várias horas. Isso pra falar de quem eu tenho como referência. Só que o que temos visto por aqui são seguidores seus que excluem da sua vida ou deslegitimam totalmente aqueles que pensam diferente – sem sequer tentar entender o que existe por trás daquele posicionamento. Gente falando com seu próximo de maneira pejorativa e injusta, como se cada um não tivesse o direito legítimo e duramente conquistado de acreditar e votar em quem deseja – e se identifica. Estou falando sobre Política, mas existem vários outros exemplos.

O problema começa quando a gente escreve/fala uma coisa e faz outra. Porque aí, na rede a gente é uma pessoa e fora dela, offline, somos outra. É o que a incoerência faz com nossa identidade se nós não tivermos controle sobre ela.

Nós falamos uma coisa e fazemos outra. Cobramos honestidade, idoneidade e respeito, mas sonegamos impostos, furamos filas (estou falando na primeira do plural mas não faço nada disso), não recolhemos o cocô do nosso cachorro na rua, jogamos entulho na calçada dos outros, encontramos um celular e não devolvemos, entramos no elevador e apertamos o botão pra fechar a porta logo (na cara de alguém que vem vindo atrás), fazemos nossos rituais religiosos e apontamos o dedo na cara de alguém que torce pra outro time com sangue nos olhos. Pregamos o perdão, mas não conseguimos perdoar. E por aí vai.

Acho que o nosso grande erro é negligenciar as pequenas atitudes, achando que elas não têm tanta importância assim. Só que é através delas, no dia-a-dia, que estamos dizendo para os outros quem de fato somos; através delas é que as crianças aprendem. Quer ver?

Aqui no prédio onde moro tem 4 torres de apartamentos de tamanhos diferentes. Já escutei crianças dizendo: “A torre A e B é classe baixa. A torre C é classe média. A torre D é classe alta”. De onde vem isso? Do que ela escuta dentro de casa. Outra, outro dia, disse assim: “Mulher piranha é quando ela troca de namorado”. Então é isso, pessoal. A gente quer respeito, mas não sabe respeitar o outro. A gente não gosta que nos julguem, mas sabe e adora julgar o outro. A gente não gosta que nos chamem atenção quando cometemos um erro, afinal todo mundo erra. Mas a gente é especialista em ver o que o outro fez de errado – e as coisas boas viram mínimas. A gente gostaria que entendessem que nossas escolhas têm um fundamento, nossa vida toda está por trás delas. Mas não consegue respeitar e ser condescendente com as escolhas dos outros.

“Ah, a natureza humana é assim”.

Não, eu juro que não espero – nem dos outros e nem de mim – a perfeição e limpidez de comportamento. Nós erramos sim, nós julgamos sim, nós somos injustos sim, com os outros e conosco – tudo isso faz parte da natureza humana? Faz. Mas existe uma diferença entre a natureza humana e os animais e vocês já sabem quais são. A gente consegue pensar, analisar,  mudar. Os bichinhos não.

O que eu espero – e sugiro, e me policio – que exista é o esforço de sermos coerentes. Porque o esforço leva ao sucesso. Depois, torna-se um hábito. Até que um dia teremos a capacidade de só dizer o que realmente faz sentido pra nós e ter o cuidado de não nos trairmos depois, fazendo exatamente o contrário. Não adianta uma pessoa pregar textos religiosos na internet e agir com tanta rigidez ou mesmo indiferença diante de amigos com posicionamentos diferentes. Eu acho que as coisas deveriam estar mais ligadinhas.

Usei um exemplo – do que mais vejo, do que mais escuto. Não sou um modelo de conduta, mas sou uma autocrítica ferrenha. Estou tentando compartilhar um pouco das minhas reflexões com vocês.

Você já parou pra pensar nisso? Tem mais algum exemplo que se lembra sobre incoerência?

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